É incrível como a Áustria e a Suíça se confundem em quase tudo: é tudo arrumadinho e limpinho, faz um frio de rachar no Inverno, há demasiados sítios onde se fala alemão (bom, no caso da Áustria, na totalidade deles) e aquela estúpida mania da neutralidade faz-nos ter vontade de lhes arrancar o sorriso da cara com uma ventosa de canalizador. Na Áustria, esta questão da neutralidade é ainda mais irritante, porque está prevista na constituição e, ao que parece, os senhores foram claros o suficiente para escrever um parágrafo a dizer que querem ser neutros para sempre. Mesmo que nasça outro cidadão baixinho e de bigode ridículo.
O que irrita, especialmente, no caso dos austríacos, é que eles têm um ar simpático e tudo aquilo faz sentido. São neutros porquê?, nem eles sabem. São e pronto. Têm um exército e serviço militar obrigatório, mas não sabem para quê (conheço outro sítio na Europa onde já foi assim…). E segundo me explicou um austríaco de gema (nascido em Berlim, portanto), a principal função dos militares austríacos, hoje em dia, é dar assistência aos guardas-fronteiriços. «Para impedir os húngaros de entrar?!», pergunto eu, com o ar aterrorizado de quem nunca leu uma linha sobre História Contemporânea: «não, isso da cortina de ferro já não existe, sixas! [‘sixas’? Eu já te disse como é que me chamo, porque é que me estás a chamar ‘sixas’?? Que panasquice é essa?? Conheces-me há cinco minutos e já estás com intimidades??] Ajudam os guardas da fronteira a impedir a entrada de imigrantes ilegais, é para isso que eles servem!». Ahhh… Quer dizer, vai dar ao mesmo: os austríacos são neutros e não querem mal a ninguém, mas há um Paulo Portas entre eles que é de extrema-direita e não grama dos estrangeiros. E nesse grupo, inclui-se os húngaros. Patético.
Salzburgo é uma cidade tão bonita que quase não se dá por ela. O centro está cheio de edifícios barrocos a espreitar para o rio, misturados com edifícios modernos e inteligentemente proporcionados. Dá vontade de não mexer em nada, não vá partir-se alguma coisa. Os arredores são ainda mais bonitos, com montanhas mais altas que qualquer Serra da Estrela, cabines de desportos de Inverno por todo o lado e casas de madeira, espaçosas, quadradas e de grandes telhados negros. Tudo limpo e arrumadinho, como se a empregada tivesse vindo trabalhar nessa manhã. Há uns lagos fantásticos, a perder de vista, suportando as montanhas de um lado e de outro. E a mim, que sou fino, hospedaram-me num hotel que é um castelo. Tão incrível e inacessível que não se chega lá de carro – levam-me numa lancha rápida, um passeio lindo e agradável que só não é mais lindo e mais agradável porque o frio corta-me os beiços como se estivesse a enfiar a cara num balde de gelo. Entra-se por um jardim que mais parece uma plateia para a Áustria inteira, depois passa-se por um túnel feito nas entranhas da rocha cujo caminho está marcado por velas e tochas e, quando já começava a imaginar uma recepção cheia de teias de aranha, com mobiliário antigo e morcegos a esvoaçar de um lado para o outro, dou com uma comissão de boas-vindas num moderno e impecavelmente remodelado lobby, cheio de mobiliário envidraçado e criativo.
Primeira inevitável curiosidade: quantos pedaços da minha biologia eu teria que entregar ao cozinheiro para pagar tão-somente cinco minutos de estadia naquele sítio? Nada. Procurei por todo o lado, não há uma única tabela de preços. Nem a Stiegl fresquinha que eu pedi no bar me deixaram pagar. «Isto é tudo negociado a priori», diz o relações públicas daquele espaço: «herr Didi não gosta de conversas sobre dinheiro. Não há uma única caixa registadora no hotel e todo o dinheiro que vais encontrar por aqui há-de estar nos bolsos de alguém».
- «Onde andaste, pá?»
- «A ver as vistas», disse eu, sem dar parte fraca. «Isto é lindo, o que é que há para não gostar num sítio como este?»
- «Hum… está sempre a chover.»
- «Sempre?!»
Bom, primeiro que tudo, tu não fazes ideia de onde eu venho, por isso, faz o favor de não me misturar com a horda de espanhóis que está aí ao teu lado a falar alto, a comer com as mãos e a cuspir perdigotos. Segundo, peço desculpa mas eu não trocava isto por um país cheio de sol. Aqui estamos na 10ª melhor economia do mundo, o PIB da Áustria não pára de crescer desde os anos 90 e é tudo tão organizadinho que parece a Suíça, mas para melhor.
- «Sabes…», diz ele enquanto lambe a espuma da cerveja do lábio superior, «isso é tudo muito bonito, mas não és tu que tens que passar a vida a ouvir a aturar os alemães, nem os turistas idiotas que aqui vêem à procura de sinais do Adolf».
- «Deixa lá… eu do Adolfo só gosto de me lembrar que um dia se matou, a ele e à Eva, cheio de medo de ser capturado pelos soviéticos, num bunker, em Berlim», tentei rematar, com uma gargalhada tão idiota que até a mim me assustou.
- «Pois… nós também…»






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