Famosa por causa daquele clube que tem uma estranha predilecção de esmagar os clubes de futebol de Lisboa com festivais de golos (sim, sim, ou os benfiquistas têm memória curta e esquecem-se que também já sucumbiram aos pés do «Kataklinsmann»?), famosa por ter a sede de uma das marcas de automóveis preferidas dos construtores civis e famosa por ter uns santos populares em Outubro em que dezenas de canecas de cerveja se enfiam teimosamente em generosos braços de senhoras de tranças e bigodes maiores que o meu.
O que eu sei de língua alemã chega para muito pouco: «guten morgen», para dar a ideia que estou feliz porque está uma linda manhã, mesmo quando é de noite; «danke schön», para parecer educado e inteligente; «auf wiedersehen», que uso com frequência sempre que pressinto que vou conseguir sair rapidamente daquele país; e «eine bier, bitte», a expressão mais importante de todas, que quando corre bem tem como resultado prático porem-me uma cerveja à frente dos beiços. Da última vez que usei esta frase fiquei extraordinariamente feliz: primeiro, porque a menina a quem eu pedi a cerveja - que parecia o maestro Vitorino de Almeida vestido de padeira austríaca - percebeu à primeira e até sorriu; e, segundo, porque esta foi a primeira vez em 7432 idas a Munique em que não estava a chover torrencialmente ou a nevar. E olhem que eu já tentei ir em Agosto e, mesmo assim, choveu durante 72 horas. Ininterruptamente.
Eis que chega, então, uma cerveja. Fresquíssima, com borbulhas lindas, com um grande bigode de espuma e muito loira. Parecia quase a Marisa Cruz. E parecia, sobretudo, porque era grande, muito grande. E estava dentro do maior copo de imperial que eu já vi na vida. Uma cerveja que, na sua esplendorosa totalidade, era mais alta que a Carolina Patrocínio*. Fantástico. Era mesmo o que me estava a apetecer, porque, na verdade, não há mais nada de jeito para fazer em Munique.
* - é que eu já estive ao lado da Carolina Patrocíno. Quer dizer... disseram-me que tinha estado ao lado dela. É que eu espreitei, espreitei, olhei para baixo, mas ela é tão pequenina que ficou tapada pelos meus joelhos. Mas dizem que tem um rabinho, ui, ui...
Quando me disseram que alguém estava a combinar uma visita ao centro histórico da cidade, acompanhado de guia turístico, torci o nariz. Torci o nariz, porque nesse momento estava a tentar enfiar toda a minha cabeça biónica dentro do copo de cerveja e o meu nariz, que é feito numa mistura de carbono e kevlar, estava todo torto. E depois porque não me parecia uma boa ideia trocar as melhores loiras que eu já vi na vida por um passeio numa cidade alemã. Todavia, sob a ameaça de divulgação às autoridades da minha posição geográfica no planeta** e a ameaça de porrada, lá tive que engolir a pilsner à pressa e ir com o resto da manada.
À frente de uma guia turística juntou-se um numeroso grupo de pessoas. Dois americanos, uma dinamarquesa, cento-e-oitenta-e-três japoneses e uns dois ou três espanhóis. Os espanhóis perderam-se ao final de duas esquinas, felizmente. Os japoneses fizeram o trajecto todo, infelizmente. A guia turística era uma simpatia e falava inglês. Tinha uma voz quase tão irritante como a daquela moça que apresenta um programa de TV com o Goucha, mas era, na verdade, muito simpática. Tinha uns óculos que a faziam ter um ar inteligente. Unhas pintadas, bem arranjadas. Camisa de seda impecavelmente passada. Manchas de suor nos sovacos como se fosse o Camacho. No fim, recebeu palmas dos japoneses e ficou emocionada. Ao meu lado estava uma japonesa que não parava de rir. Formosa, fofa. Com sorriso singelo, fofo. Tinha um cabelo preto, longo, bonito, fofo. Afinal, era um japonês. Fofo.
Um dos pontos altos da visita guiada à cidade é ficar uns minutos - algures entre dois e três minutos, o que para mim é uma eternidade - à frente do edifício da antiga catedral à espera que bata as quatro da tarde para se ver um espectáculo inolvidável. Uns bonequinhos mais ou menos apessoados andam para a frente e para trás, batem com as canecas umas nas outras e fingem que estão a dançar, ao som de uma cacofónica melodia dos sinos. Miserável espectáculo e milhares de pessoas a ver. E a bater palmas. Quer dizer, os japoneses batiam palmas. A tudo, basicamente.
O melhor de Munique foi o que descobri, sem querer, enquanto andava perdido a tentar encontrar o Schweinsteigger para lhe dar com uma cadeira no focinho. A uma meia hora de caminho do centro de Munique (45 minutos, se for um Fiat, uma hora e dez, se for de pasteleira, duas horas e meia, se for a pé) fica um memorial. Mais concretamente, um memorial sobre o Holocausto, feito a partir do campo de concentração de Dachau. Isto é, o campo de concentração propriamente dito, transformado num museu, que todos podem visitar. Eu decidi visitar e, como bom parvo que sou, entrei cheio de moral e a fazer piadinhas parvas sobre judeus, férias e hotéis de cinco estrelas. Bastaram cinco minutos lá dentro para perder a vontade de rir e 40 minutos de visita, com passagem pelas câmaras de gás (que foram mantidas intactas, mas sem bicos de gás), para ficar mais enjoado do que se tivesse comido favas à transmontana.
Só por causa disso, tiro-lhes o meu chapéu. Mas a seguir ponho-o logo na cabeça outra vez, que está frio...
o
2 comments:
1º Tu não tens bigode. Pelo menos não tinhas da última vez que te vi (que já foi aí há 20 anos, mas pronto).
2º Apareceu-te uma "menina" parecida com o maestro Vitorino de Almeida vestido de padeira austríaca e tu conseguiste pedir-lhe uma cerveja? Eu é que te tiro o chapéu. A mim, muito provavelmente, ocorrer-me-ia qualquer coisa como "F***-SE!!!"
3º A "municos", "muníacos" e "muniscos" acrescento "muniques". Assim, ao estilo de "palestinos".
4º Ide escrever guiões com as Produções Fictícias, ide.
1. Bom... isto que eu tenho agora não é exactamente um bigode... é uma pelosidade que cresce debaixo do nariz. Mal semeada, mas vá... fico com aspecto de puto giro :)
2. Por acaso foi o que me saiu, «F***-se!, ó Vitorino, eine bier bitte». Felizmente ele... perdão, ela percebeu só a parte que interessava.
3. À luz do novo acordo ortográfico, espero que não dê uma coisa do tipo «muniquienses»...
4. Não me parece má ideia e muito me honraria. Mas eles não precisam lá de um parvo como eu...
Post a Comment