Todo Carnaval tem seu fim (menos o português)

*** Por favor: se conhece alguém com influência ou com um martelo de orelhas, mande fechar este blog *** Não se admite tamanho atentado à integridade intelectual dos cidadãos *** E à integridade física dos llamas chilenos *** E não se admite que o José Carlos Malato faça tantas curas de emagrecimento para, afinal, estar mais gordo ainda ***

Sunday, December 06, 2009

LA is my lady... ta ta ta ta ta...

Tentei em vão localizar o Sinatra nos auscultadores. Faz tempo que não presto as minhas homenagens ao dirty old Frank. Há sempre alguma coisa de imortal na obra dos artistas que já se foram, uma súbita necessidade de zelar por que não se preca o contacto, de os reencontrar na perpétua obra que deixaram. Passa-se mais ou menos o mesmo com o Michael Jackson – agora que se foi, dá vontade de voltar a ouvir as suas músicas. Felizmente, é uma vontade que passa depressa. Basta ouvir o ‘Bad’ e pronto, assunto resolvido. Passa logo a vontade. Curiosamente, nunca tive vontade de reescutar a Amália e faz tempo que já se foi. Há sempre alguém disposto a lembrá-la por mim, numa rádio, num projecto musical fusionisto-sofisticado, num filme, num musical do La Féria, portanto não me parece que ela dê pela minha falta.

Voltando ao Sinatra. Não o encontrei na música de bordo, mas reencontrei-o mentalmente o suficiente para me acompanhar na belíssima descida do avião sobre a Greater Los Angeles. «LA is my lady… ta ta ta ta ta…», canta o Frank dentro do meu cérebro artificial, embalado pela multidão em delírio no Rose Bowl e pelo malte fermentado dos quinze whiskeys que despachou antes de tentar cantar aquela melodia ao vivo. [Perto do final da carreira, Sinatra estava um farrapo. A voz grave e pungente já só era meramente suficiente para falar, e contando que fosse até à hora do almoço. Para cantar, perfeita. Se fosse em playback] Felizmente estava uma tarde maravilhosa de um sol dourado reflectido no alvo das letrinhas mais famosas das colinas de Hollywood. O 747 sobrevooa a imponente Los Angeles como se fosse um pardal ligeiro, o que não deixa de ser surpreendente tendo em conta que estamos a falar do pássaro mais monstruoso e improvavelmente aerodinâmico que anda pelos céus normalmente. E a vista percorre Los Angeles de um lado ao outro, e mais um bocado de Los Angeles a seguir. E depois disso ainda há mais Los Angeles. Quase sem prédios altos. Quase exclusivamente preenchida por propriedades que crescem na horizontal e não na vertical. Sem muros. Com jardins. Com piscinas. Bonito.

Na Greater Los Angeles, uma zona metropolitana umas 200 mil vezes maior que o Lichtenstein e quase 300 milhões de vezes maior que o Colombo [a sério, dei-me ao trabalho de confirmar], vivem treze milhões de pessoas. Mais do que a população da Bélgica. Quase tantas pessoas quantas as que visitaram a Disneyland Paris no ano passado. Quase tantos seres humanos quantos todos os benfiquistas do mundo inteiro. Metade desses treze milhões de Los Angelinos [ou será Los Angelenses? Ou Los Angélicos? O Angélico Vieira que não leia isto, senão ainda lhe dou ideias para uma boys/gays-band…] não são cidadãos americanos. Há uma enorme comunidade oriental, com um peso decisivo de coreanos [para terem uma ideia, a Koreatown, que fica mesmo na zona baixa da cidade, ocupa uns 30 quarteirões], a conviver de forma aparentemente pacífica com mexicanos, peruanos, chilenos, porto-riquenhos, árabes, brasileiros, israelitas, paquistaneses, turcos e portugueses [há sempre um em todo o lado, não há? A caminho de Long Beach até há uma «curva dos portugueses» na estrada de Palos Verdes, que identifica a maior reserva natural da península de… hum… Palos Verdes]. Os motoristas de táxi são coreanos. Não falam uma palavra de inglês, mas percebem tudo. O dispatcher – um tipo fardado que chama os táxis e distribui as pessoas pelos carros à porta do aeroporto – é peruano e fala inglês quase tão bem como a minha mãe. [O domínio do idioma que a minha mãe possui alterna entre o «yes», o «ou-quei» e o «pénk-iú»]. O chefe do dispatcher é filho de pais jamaicanos. É o único que sabe falar inglês, apesar do bagaço lhe toldar a pronúncia.

Fico com o pressentimento que o LAX é o mais caótico pedaço de civilização que existe no mundo inteiro, com excepção de Atenas e Istambul. E da Fonte da telha. É um aeroporto enorme, confuso, em obras, desorganizado, a precisar de mais obras, labiríntico e a precisar de obras por causa das obras que já decorrem. São 45 minutos para conseguir passar pelo controlo de passaporte e outros 40 para conseguir descobrir a mala de viagem, que entretanto anda às voltas num dos tapetes esmagada por outras 7621 malas que chegaram de outros 43 voos. Depois mais um quarto de hora para passar pela alfândega. Finalmente entro na torrente dos passageiros que acabaram de chegar e se dirigem para a zona onde os familiares os esperam, que é quase tão grande como… a sala de espera de um consultório. Centenas e centenas de pessoas amontoam-se à espera de ver a cara do cidadão por que esperam. E eu, naquela confusão toda, era suposto ter encontrado alguém com um cartaz com o meu nome. Não encontrei, obviamente. Tive que ir ao balcão de informações, de onde fui sendo encaminhado para umas quinze pessoas diferentes. Finalmente fui dar com um senhor fardado com uma camisa branca com um grande «LAX» azul bordado no peito. Tinha um crachá pendurado numa fita dos… Los Angeles Lakers [eu devia ter desconfiado…]

- Tens a certeza que estava aqui alguém com um cartaz com o teu nome?
- Não tenho, mas foi o que me foi garantido pela senhora que tratou desta viagem.
[Se eu tivesse a certeza, não te estaria a perguntar por ele, pois não?]
- Como é que te chamas mesmo?... Edmund… OK… eu vou pedir que procurem pelo gajo do cartaz com o teu nome.
[Foi falar com outras pessoas. Estão com ar de que viram o tipo que eu procuro]

- Parece que já sabem onde ele está. Espera mais uns minutos.
- Eu espero…
[Praí uns dois. Ao terceiro minuto apanho um táxi porque estou a ficar sem paciência para isto]
- Vens de onde?
- Neste momento estou em trânsito, vim de Portugal.
[Mau… vem daí coisa]
- Epá, Portugal. As pessoas de Portugal têm bom coração!
- Têm sim.
[Como se tu soubesses onde fica Portugal]
- Tu também tens cara de ter bom coração…
[pronto, ele vai pedir-me dinheiro]
- …e por isso vou pedir-te que faças uma doação, qualquer quantia, qualquer moeda, para este centro de crianças orfãs. Eu sou representante das instituições de apoio e como vês estou identificado…
[…com um crachá ilegível, mas estás…]
- …e eu passo-te uma declaração para ser dedutível nos impostos.
[Estou mesmo a ver o departamento fiscal do Qatar, que é onde eu vivo, a aceitar esse papelito verde que me estás a dar para a mão…]
- Eu só tenho uma moeda de dois euros e…
[interrompendo-me]
- …dá-me antes vinte!



[ainda incrédulo]
- Ouve, vou dar-te estes dois euros e tu fazes o que quiseres com eles, contando que me encontres o gajo que me vinha buscar de limousine, OK?
- É que vou já buscá-lo! Toma, eu escrevi aqui que me tinhas dado 35 dólares. Por teres um bom coração.
[Faz todo o sentido, do ponto de vista fiscal. E do ponto de vista da caridade, também]

Não fiquei para ver se ele, de facto, tinha descoberto alguém que soubesse o meu nome. Até porque tenho a certeza que ele nem sequer voltou. Cinco segundos depois de eu ter começado a caminhar em direcção ao táxi ouviu-se um anúncio nos altifalantes: «o aeroporto de Los Angeles não apoia nem incentiva qualquer peditório feito por cidadãos. Não se sinta obrigado a contribuir». Obrigado. Obrigado por me dizerem que eu não sou obrigado.

Adiante. Não interessa. Estou hospedado em Beverly Hills e a entrada da Doheny Drive, com as palmeiras iguais às que se vêem nos filmes, é suficiente para me fazer sentir que seria capaz de viver num sítio assim. Se fosse rico. Ou charlatão. Consta que quem vive nas bonitas casas de Beverly Hills e West Hollywood não tem dinheiro para as pagar, mas os processos de fraudes e créditos por pagar são simplesmente demasiados. E demasiado morosos, também. E nada lucrativos, porque a especulação imobiliária dos últimos anos fez o preço das propriedades subir de tal maneira que agora não interessa a nenhuma instituição penhorar residências que depois ninguém vai conseguir comprar ao preço pedido. Mas é lindo. Diria quase perfeito. Longas e largas avenidas, algumas zonas perfeitas para passear a pé. Esqueçam o passeio das estrelas – elas nem sequer andam por ali. É mais fácil vê-las a correr de iPod nos ouvidos em Santa Monica ou em Malibu, ou então a jantar em Sunset Strip. Se alguém pensa vir a Los Angeles atrás das estrelas de cinema, está a cair num logro dos grandes. Elas raramente se mostram e raramente frequentam os mesmos sítios por hábito. Variam os locais e os horários, para fintarem os paparazzi. O único sítio onde é quase certo encontrá-las é em Rodeo Drive, onde estão as lojas mais caras da Califórnia. E mesmo aí, é bom que seja numa das lojas que não tem entrada pela porta dos fundos ou que não seja uma das que fecha as portas cada vez que aparece a Julia Roberts. De resto, é quase impossível. É tudo tão grande e tão extenso que é mais fácil encontrar uma amostra de sangue não-contaminada num pelotão de ciclistas. É incrível, nunca vi nada assim. Dentro da Greater Los Angeles há a cidade de Los Angeles, a cidade de Beverly Hills, a cidade de West Hollywood, Malibu, Palm Beach, Brentwood, South Beach, Long Beach, Century City, Santa Monica, Harbour City… uf…

A mais bonita é, indiscutivelmente, a de Santa Monica. Para lá chegar é preciso fazer a Santa Monica Boulevard que a Sheryl Crown canta na famosa canção. E já agora, é bom que não sigamos o conselho dela para a pecorrer «until the sun comes up over Santa Monica Boulevard», porque é mais bonito fazê-la de dia. Ainda que se comece numa ponta [em Sunset Boulevard, o sítio das prostitutas e dos travestis], às três da tarde, e se termine na outra, 15 km mais tarde e já de noite [o sol, por estas bandas, põe-se depressa. Demora uns três minutos. Vá, talvez quatro]. O trânsito é infernal, como seria de se esperar na segunda maior cidade da América, mas incrivelmente organizado e civilizado. Os franceses, amantes incondicionais de rotundas, devem ter um ataque apoplético cada vez que têm que fazer um cruzamento entre avenidas da Cidade dos Anjos. Está instituído que os carros de ambos os sentidos avançam na direcção uns dos outros e, no eixo da via, cada um vai para seu lado, evitando-se mutuamente e evitando o trânsito que avança nas restantes faixas. Sem colisões. Perfeito. E mesmo que um semáforo esteja vermelho para quem quer seguir em frente, quem quer virar à direita não tem que o respeitar, contando que não esteja nenhum outro carro a cruzar a avenida.

But enough of this traffic crap. Vamos ao que interessa: gajas. Como são as gajas de Los Angeles? Não faço ideia. Passei o tempo enfiado dentro de carros ou em aborrecidos encontros formais com pessoas de gabinetes de senadores, oficiais de justiça, advogados, juristas, jornalistas, representantes do turismo, fabricantes de tequilha, seguranças e adidos culturais. [se calhar não eram fabricantes de tequilha, mas havia dois gordinhos mexicanos naturalizados que pareciam mesmo saídos de um filme do Cantinflas] As únicas «gajas» que vi eram as respeitáveis secretárias dos administradores, cada qual com idade para serem minhas avós [eu sou novinho, ainda nem fiz 14 anos, em idade saturniana], portanto compreendem se eu subitamente sentir a tentação de não proceder a comentários sobre elas. A não ser para dizer que eram gordas.

Pois se há alguma coisa comum aos americanos da Califórnia, sejam eles coreanos ou mexicanos, é a obesidade. Na verdade, isto é comum aos americanos em geral. Em média, um yankee ingere 3600 calorias por dia. Um número simpático, tendo em conta que um cidadão adulto pode viver nas calmas com 1500 calorias por dia e o normal é não superar as 2100. Por aqui começa a fazer sentido que os americanos tenham carros grandes e vivam em casas gigantescas, porque têm que fazer caber as suas enormes barrigas em qualquer lado. E também faz algum sentido, bem vistas as coisas, que não andem a pé. Para ir a qualquer lado de Los Angeles é preciso ir de carro, porque é tudo longe de tudo. Por exemplo, eu quis ir ver as letrinhas de Hollywood de perto.

- Como é que faço para ir lá acima às colinas ao pé do Hollywood sign?
- Simples, sir. O Four Seasons tem o prazer de o convidar a ir numa das nossas limousines.
[O concierge do hotel é assim uma espécie de Jeff Bridges impecavelmente vestido de sobretudo e gravata e cartola. Mas não é actor. É só o frontman do hotel. Embora eu ache que ele gostava de ser actor]
- Mas eu queria ir a pé.
- Impossível, sir. São umas quatro milhas.
- Como assim, impossível? Eu gosto de andar a pé.
- Mas é muito longe.
- Está bem, mas e então se for apenas perto do Hollywood sign?
- Ainda serão umas três milhas.
- E não dá para ir a pé?
- Talvez. Mas terá que subir a colina a pé.
- Tudo bem, mas vale a pena? A vista é bonita?
- Nem por isso, sir. Inclusivamente nem se vê nada a esta hora da noite [eram cinco da tarde] porque as luzes estão desligadas.

Estou a ficar farto deste lugar. Vou-me embora. Espera-me uma via-sacra em réplica para passar pelo LAX outra vez. Mas desta vez, depois dos oito controles de entrada, três máquinas de raio-x, uma revista em que até me quiseram ver a cor das cuecas [o que foi extraordinário, tendo em conta que eu não uso cuecas] e mais três quilómetros e meio a andar a pé, havia ainda mais um tormento: um alarme na sala de embarque que tocou 43 minutos seguidos sem que alguém se tivesse preocupado em desligá-lo. Finalmente alguém o desligou. Ouviram-se palmas. Sinto-me aliviado por sair de um sítio assim. Mas a verdade é que estava capaz de viver por cá.
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[breve vídeo de 20 segundos do inferno do alarme no LAX. Para verem que não estou a inventar]


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Thursday, October 15, 2009

EXCLUSIVO: Maitê Proença assume identidade portuguesa e escreve num blog de maledicência

Não percebo. Juro que não percebo. Ando há anos a dizer mal dos portugueses e nunca ninguém se insurgiu contra mim. De repente aparece a Maitê Proença, actriz brasileira popularizada por ter uma das vozes/dicção mais irritantes da comunidade de Língua Portuguesa e por ter a genitália mais frequentemente retratada no cinema brasileiro dos anos 80, e cai o escândalo. E toda a gente exige um pedido de desculpas. A mim nunca ninguém exigiu um pedido de desculpas. A quem é que eu tenho que exibir a genitália para me exigirem um pedido de desculpa?

Irritado, enviei um e-mail à Maitê Proença a dizer-lhe umas verdades. A dizer-lhe que eu sei que ela é portuguesa. Que eu sei quem ela é. E que me peça desculpa pelo facto de a mim ninguém me exigir um pedido de desculpa. Isto de dizer mal dos portugueses exige dedicação, esforço e um certo nível de profissionalização. Não se admite que agora chegue uma actriz, conhecida dos dois lados do oceano, e assim sem mais nem menos me tire o emprego. Já não chegavam os brasileiros que servem nos restaurantes e os brasileiros que entregam pizzas em casa, mais os brasileiros que atendem os telefones nos call-centers, os brasileiros que fazem ponto no Conde Redondo, os brasileiros que assaltam bancos, os brasileiros que montam fios da TV Cabo, os brasileiros que fazem maus anúncios de televisão para o Pingo Doce e os brasileiros que jogam no Paços de Ferreira, agora ainda temos que levar com os brasileiros que falam mal dos portugueses. Onde é que já se viu isto?? Qualquer dia, temos brasileiros a contar anedotas sobre portugueses. Isso seria um ultraje.

A Maitêzinha já me respondeu ao e-mail e às questões que eu lhe enumerei. Dez questões firmes. Uma dezena de perguntas claramente a pôr o dedo na ferida e a exigir explicações. Aqui transcrevo as respostas:

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On Wednesday, 14th October, Edmund wrote:
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Reply by Maite_proenca@uol.com.br

Caro Edmund, em resposta ao seu ímeio:

1. Eu nunca quis tirar sarro da cara dos portuga. Muito menos quis tirar de você essa atividade profissional.

2. Mil perdões, mas não tem razão de ficar embestado com isto. Gozar com portugueses não é de agora não. Já vem de longe. Há pelo menos 50 anos que toda a gente faz isso no Brasil. E já venho fazendo isso vai p'ra muito tempo. Quem sabe uns 60 anos.

3. Como você descobriu que eu sou portuguesa?? É verdade, sou sim. Em 1999 eu fiz plástica para disfarçar ruga e agora ela quebrou toda. Tou parecendo velha e portuguesa, não quero que ninguém saiba, por favor mantenha sigilo.

4. Não sei quem é esse tal de Santana Lopes que você tá falando.


5. Não creio que seja possível a gente almoçar essa semana, tou com trabalho.


6. Contracenar com Diogo Morgado foi super bacana, ele é totalmente fofinho e bom colega e excelente ator. A não ser que eu esteja confundida e você não esteja falando daquele cara espanhol e o Diogo seja aquele ator português. Nesse caso ele é um calhorda, mau carácter e um pouquinho boiolão.

7. Tou pensando voltar a posar para a Playboy sim, a grana faz falta para a plástica que vou ter que fazer para disfarçar esse rosto com que fiquei.

8. Quem é esse tal de Miguéu? Não lembro de Miguel Sousa Tavares não. Uma vez teve aqui um cara português muito inxirido que andou bisbilhotando na biblioteca, copiando coisas de livros. Ouvi dizer que ele escreveu livro em Portugal e tá sendo o maió sucesso. Dá p'ra entender. Portuga é besta, sô.


9. Olha, jantar também tá difícil, cê sabe que eu não janto. A minha refeição é a base de suplemento de vitamina, cálcio para reforçar o osso, glúton de larva de pulga e água de coco.

10. Quanto ao carnaval, olha, eu vou ficar por aqui mesmo no Brasil. Tive convite para ir no carnaval de Torres Vedras, mas nem sei em que parte da Espanha isso fica. Eles mostraram fotos p'ra mim, aquele lugar parece Baguedá depois de Sadã ter sido enforcado. Vou ficar por aqui mesmo.

Obrigado e maior beijinho, você é o maior gato Edmund

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Não apreciei as respostas e estou indignado. Assim sendo, vou revelar a identidade secreta dela. Maitê Proença é... Manuela Ferreira Leite. Fugiu para o Brasil assim que soube que o Santana Lopes queria ir a novo conselho nacional do PSD para se recandidatar à liderança do partido.

Maitê Proença, melhor dizendo, Manuela Proença Maitê da Silva Gallo Ferreira Leite, prometeu, no seu exílio em Aracajú, no estado do Sergipe, deixar de gozar com todos os portugueses, passando a gozar apenas com os portugueses que votarem em Pedro Santana Lopes. Ou em Hernâni Carvalho.

Prometeu, igualmente, passear todos os dias de manhã, junto à água do mar, em tanguinha e bikini. Também prometeu nunca mais fazer bobó. De camarão. Parece que uma vez comeu camarão estragado e agora quer evitar a gastroentrite, que é coisa para ser desagradável ao nível da tripa. Prometeu ainda enviar-me um par de havaianas, mas até agora ainda não recebi nada e estou a ficar preocupado. Prometeu voltar a Portugal unicamente no dia em que Mário Soares disser uma frase que faça nexo do princípio ao fim e, enquanto espera, vai enviar uma carta a António Lobo Antunes disponibilizando-se para ser a sua próxima namorada em terras de Vera Cruz. Que, como se sabe, é a prima brasileira do Carlos Cruz.


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Monday, October 12, 2009

Breves notas sem critério especial nem rigor por aí além sobre as eleições autárquicas

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Cancelaram a reunião dos piscopatas anónimos de domingo passado, de maneiras que dei comigo sozinho na barraca, em frente a uma televisão só com três canais. E os três a dar o mesmo: a cobertura das eleições autárquicas em Portugal.

Notas a reter:

- alguém devia ensinar português aos tipos que escrevem os oráculos. Em alternativa, podia contratar-se técnicos de grafismo multimédia que de facto tivessem estudado português na escola. Mesmo que tivessem chumbado. «Macário Correia já chegou sede de campanha» e «Portas aguarda para comentar escrútinio» eram erros difíceis de evitar, mas «Rio conquista maioria no Poto» e «Passos Coelho releito para Assembleia Municipal» talvez fossem evitados por qualquer ser humano com mais de sete anos de idade. Mesmo nascido no Uzbequistão.

- Valentim Loureiro voltou a ganhar em Gondomar e estou com um pressentimento que Tony Carreira será seu mandatário para toda e qualquer eleição futura, incluindo para os órgãos sociais do Boavista, do FC Gondomar, unidos do Chinquilho da Guiné, Federação dos Negociantes de Diamantes e Clube de Tuning de Fânzeres. Ficou provado, também, que Valentim Loureiro dispensa o uso de um microfone para discursar à multidão. Os seus gritos de ontem ouviram-se em Reguengos de Monsaraz.

- Santana Lopes não estava a preparar-se para ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Assim que percebeu que não ia vencer (deviam ser umas cinco da tarde e o gin já tinha acabado, só sobravam dois rissóis do dia anterior e um folhado de salsicha roído pelo cão), começou a preparar-se para a Meia Maratona de Lisboa. Fez o caminho entre a sede de campanha e o escritório de advogados umas trinta vezes e está em belíssima forma. Alguém devia explicar-lhe, porém, que nas maratonas não há obstáculos. É que ele insistia em fazer o caminho por detrás dos carros de exteriores e saltando vigorosamente as rampas dos camiões, com uma desenvoltura digna do Rochemback antes da picanha do pequeno-almoço. Nunca vi ser humano tão obcecado pela própria imagem. Nem o Narciso - o grego, não aquele de Gaia - gostava tanto de si próprio. O Santana foi o único candidato a assistir à revelação das projecções num sítio onde pudesse ser filmado. Provavelmente era o único a acreditar que podia ganhar. Mas devia ter sido um dos vários em que ninguém devia ter votado.

- Hernâni Carvalho ia ganhando. Decididamente, há demasiada gente em Odivelas a precisar de acompanhamento psiquiátrico.

- Elisa Ferreira ganhou o prémio de sorriso mais falsificado da noite. Deve ter treinado aquela expressão facial vezes sem conta e sempre em frente ao Pedro Abrunhosa, para se ver ao espelho nos óculos dele (é verdade, vou desmistificar um mistério: o Abrunhosa usa óculos escuros porque é estrábico. Daqueles assim mesmo BUÉ estrábico. Tipo as mamas da Ana Malhoa, uma para cada lado. OK? Não tem nada a ver com estratégias de marketing. Achei que deviam saber, só isso. Também nunca percebi o interesse do assunto. O Zé Cid usa óculos escuros há decénios e nunca ninguém quis saber porquê). Elisa Ferreira estava tão contente, mas tão contente, tão radiante, que logo a seguir àquele sorriso encantado pela forma como decorreram as eleições a seu (des)favor, anunciou que vai para Bruxelas. Até a Fátima Felgueiras se esforçou para fazer um sorriso mais honesto. O típico sorriso de quem acabou de se urinar nas calças em público e toda a gente notou.

- Em Torres Vedras ganhou Soares Miguel. Ganhou a si próprio porque o presidente já era ele. Ganhou com inteira justiça e mereceu todo e cada voto que lhe concederam. Do programa eleitoral do candidato socialista e presidente da autarquia constava apenas uma breve nota sobre a «criação do Centro das Artes do Carnaval». Extraordinário, para um município onde o carnaval tem um peso tão grande, como todos os defensores do carnaval gostam de frisar. O que representa em termos económicos, turísticos e sociais. Uma importância incrível. Uma relevância tão grande, tão histórica, tão cultural, que mereceu duas linhas no programa eleitoral do candidato mais forte e, mesmo assim, sobre um tema obsoleto e ridículo. Felizmente, há pessoas inteligentes a viver neste país dos portugueses. Duas ou três. Uma delas deu-se ao trabalho de escrever isto num blog. Não sei quem é, nem o que faz, nem para quem trabalha, nem sequer se é de Torres Vedras. Mas desço do meu suporte básico de vida e faço-lhe uma vénia, considerando-me, a partir de hoje, seu admirador.

- Alguém devia arranjar uma cadeira mais larga para Pacheco Pereira. O conhecido comentador social-democrata é daqueles cidadãos obesos que, quando exulta a sua soberba e quase cai da cadeira, quase cai para os dois lados.

- Seguindo a mesma linha de raciocínio (inventada por um colega meu que é copeiro num bar de strip, porque eu não sei raciocinar), alguém devia arranjar uma almofada dupla para a cadeira do Marques Mendes. Mesmo estando numa cadeira extensível em altura, puxada no máximo para cima, continua a parecer pequeno.

- Ninguém se concentra no que o Pacheco Pereira está a tentar dizer depois de ver as pernas da Clara de Sousa.

- Ninguém leva a sério um pivot de uma noite eleitoral se ele tiver a barba de adolescente garanhão do Rodrigo Guedes de Carvalho. Seria o mesmo que o Mário Crespo de rabo-de-cavalo e t-shirt cava justinha ao peito ou a Ana Lourenço de tranças e traje colegial. Se bem que me agrada mais a segunda ideia do que a primeira.

- A ideia da RTP tentar passar a imagem ultra-tecnológica dos pivots a comandar a emissão a partir de uns mega touch-screens não resultou lá muito bem. Toda a gente percebeu que havia descoordenação entre o toque no ecrã e o gajo que estava na régie a comandar as operações.

- Ver o Pedro Pinto como coordenador de uma emissão especial sobre eleições é mais ou menos o mesmo que ver o Rui Unas a coordernar o Prós e Contras sobre o referendo ao aborto. Aquilo não cola. E como a TVI voltou a levar uma grande tareia nas audiências, a próxima noite eleitoral vai ser apresentada pela Júlia Pinheiro e pelo Manuel Luís Goucha.

- Quem teve a ideia de colocar Miranda Calha como coordenador autárquico do PS devia passar três dias a arrancar os outdoors de campanha com os dentes. E quem teve a ideia de o deixar discursar para as televisões devia estar a escrever guiões para programas do Baby TV. Ou dos novos canais ZON-zen. Miranda Calha aparece e os jornalistas não prestam atenção ao que ele está a dizer. É uma risota pegada. O Guiness está a investigá-lo para recordista mundial de tiques.

- Como sempre, em qualquer eleição, nunca ninguém perde. Tenho pena de não ter apanhado nenhuma declaração pública de Manuel Monteiro nas últimas três semanas. Tenho a certeza que nem ele seria derrotado. A CDU perdeu várias autarquias e, mesmo assim, diz que reforçou a sua posição naquelas que manteve. E queixa-se que as pessoas que não votaram na CDU não o fizeram porque foram atrás das ideias de direita do PS. Os comunistas gostam de ideais de direita? Não sabia. Francisco Louçã fez uma declaração pública em que parecia - por momentos cheguei a pôr o aparelho auditivo no máximo porque pensava que era desta - que ia admitir a derrota. Mas não. Disse apenas que ia mencionar um objectivo que o BE não tinha conseguido atingir e, sem dar por isso, mencionou dois de seguida. E no imediato lançou-se a dizer que era uma grande vitória a manutenção da única câmara municipal que já tinham.

- Maldita ZON TV Cabo. Se não fosse pela incompetência de quem ali trabalha, não teria sido obrigado a passar por tudo isto.

- Peço desculpa. As notas não são tão breves quanto isso

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Friday, October 09, 2009

Socorro. Torres Vedras inteira quer matar-me e eu já me comprometi a discursar numa convenção de filatelia esta noite e não me dá jeito morrer agora


Parece incrível. Até eu fico (mais) parvo (ainda) com isto.

Este post continua a dar que falar. De tal maneira, que estou tentado a reeditá-lo, mudando uma ou duas palavras para o tornar ainda mais ofensivo, voltando a pô-lo aqui logo na frontpage.

Toda a gente em Torres Vedras me quer ver morto. Só porque eu digo que o carnaval de Torres Vedras é estúpido. E digo outra vez: o carnaval de Torres Vedras é estúpido. E o Luís Delgado também. E não consta que o Luís Delgado me queira matar, ao contrário do carnaval de Torres Vedras, que me quer ver sete palmos debaixo da terra.

O carnaval de Torres Vedras é estúpido. Será que recebo um prémio por dizê-lo num número de vezes recorde?

Caros amigos de Torres Vedras: se me querem matar, por favor façam-no ordeiramente e aguardem a vossa vez, porque há uma fila enorme à espera. O Carlos Castro, o Nuno Eiró e o Santana Lopes são os primeiros da fila e estão à espera há imenso tempo. E eu tenho vida que chegue para toda a gente matar, mas não pode ser assim tudo ao mesmo tempo, senão dá confusão. E nem eu morro, nem vocês almoçam. Pode ser?

O carnaval de Torres Vedras é estúpido. Por nenhum motivo especial que não seja ser genuinamente estúpido. E talvez, também, por ter gente estúpida a defendê-lo.
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Thursday, October 08, 2009

Toda a parvoíce é profissional, com excepção da que é involuntária

Há pessoas que são parvas por convicção. São-no e sabem-no e usam-no em seu próprio capital. Vasco Pulido Valente, por exemplo. Esforça-se para ser parvo como é, para continuar a ter para onde vomitar o seu ódio. Camilo Lourenço, outro excelente exemplo: passa a ideia que é um parvo que aprendeu Economia às próprias custas, que a vida o ensinou, que a experiência lhe deu tudo o que sabe. Quando, na verdade, toda a gente sabe que ele não sabe nada do que diz e escreve. António Tadeia e Luis Sobral: dois comentadores de futebol que são muito parvos, porque isso é importante para manter o emprego. Se as pessoas soubessem que eles nunca puseram o cú num campo de futebol nem nunca apanharam pé-de-atleta num balneário, percebiam que eles não dizem nada de jeito simplesmente porque não percebem nada do que estão a fazer. São os parvos profissionais, os que exercem parvoíce e passam recibo. Como João Malheiro. Ou a Maya. Ou aquele moço de tamanho diminuto que apresenta um programa que tem «pastéis de nata» no nome e apanhou Gripe A. Ou o Fernando Girão. Ou o José Cid.
O Luís Delgado não conta. Não entra nestas contas por não ser parvo. Luis Delgado é simplesmente estúpido.

Mas há pessoas que são parvas de modo involuntário. Veja-se Hernâni Carvalho. O momento mais marcante da sua existência foi ficar refém num abrigo em Dili e os timorenses a morrer à sua volta. Conseguiu regressar, infelizmente. Deu entrevistas na televisão, nem uma lágrima verteu, pese embora os relatos horríficos da chacina que presenciou. Austero, inabalável, a seguir dedicou-se aos casos impossíveis. O da menina que desapareceu no Algarve. Caso duro. Caso misterioso. Caso mórbido. Um caso do Carvalho. Só ele sabe onde ela está, o Gonçalo Amaral que tire o cavalinho da chuva. E hoje, Hernâni continua a ser um homem de causas. Por causa disso, candidatou-se à Câmara Municipal de Odivelas, talvez com a promessa eleitoral de fomentar o turismo entre casais swingers do Reino Unido. Odivelas precisa de mediatismo. Odivelas para o mundo. Odivelas na blogosfera. Odivelas rumo a Marte. Odivelas incandescente.

Eu não sou candidato a nenhuma autarquia. Mas prometo - é a minha promessa eleitoral - deixar de falar a todas as pessoas que descobrir que vão votar em Hernâni Carvalho. E eu sei que elas agradecem.

Dito isto, é preciso fazer uma ressalva. Eu não sou parvo por convicção nem parvo porque calhou. Sou parvo porque é muito divertido ser.


- A minha colega acabou de comentar comigo: «o Joaquim de Almeida diz que a Kim Bassinger acabava as cenas de nudez e imediatamente se enrolava no robe».
- Eu percebi: «o Joaquim de Almeida diz que a Kim Bassinger acabava as cenas de nudez e imediatamente se limpava no rabo»


Percebem como é divertido?

Friday, May 15, 2009

Os austríacos têm PH neutro e odeiam alemães*


*o que, a meu ver, me parece uma excelente ideia.

É incrível como a Áustria e a Suíça se confundem em quase tudo: é tudo arrumadinho e limpinho, faz um frio de rachar no Inverno, há demasiados sítios onde se fala alemão (bom, no caso da Áustria, na totalidade deles) e aquela estúpida mania da neutralidade faz-nos ter vontade de lhes arrancar o sorriso da cara com uma ventosa de canalizador. Na Áustria, esta questão da neutralidade é ainda mais irritante, porque está prevista na constituição e, ao que parece, os senhores foram claros o suficiente para escrever um parágrafo a dizer que querem ser neutros para sempre. Mesmo que nasça outro cidadão baixinho e de bigode ridículo.

O que irrita, especialmente, no caso dos austríacos, é que eles têm um ar simpático e tudo aquilo faz sentido. São neutros porquê?, nem eles sabem. São e pronto. Têm um exército e serviço militar obrigatório, mas não sabem para quê (conheço outro sítio na Europa onde já foi assim…). E segundo me explicou um austríaco de gema (nascido em Berlim, portanto), a principal função dos militares austríacos, hoje em dia, é dar assistência aos guardas-fronteiriços. «Para impedir os húngaros de entrar?!», pergunto eu, com o ar aterrorizado de quem nunca leu uma linha sobre História Contemporânea: «não, isso da cortina de ferro já não existe, sixas! [‘sixas’? Eu já te disse como é que me chamo, porque é que me estás a chamar ‘sixas’?? Que panasquice é essa?? Conheces-me há cinco minutos e já estás com intimidades??] Ajudam os guardas da fronteira a impedir a entrada de imigrantes ilegais, é para isso que eles servem!». Ahhh… Quer dizer, vai dar ao mesmo: os austríacos são neutros e não querem mal a ninguém, mas há um Paulo Portas entre eles que é de extrema-direita e não grama dos estrangeiros. E nesse grupo, inclui-se os húngaros. Patético.

No fundo, no fundo, eu preciso encontrar um motivo para embirrar com estes tipos. O idiota tratou-me por ‘sixas’ e já me parece razão suficiente para arranjar confusão e propor um duelo de fisgas. Mas, afinal, ‘sixas’ é apenas uma forma comum de um austríaco dizer ‘tás-a-ver?’. Bolas… ainda não é desta. Insisto na questão da neutralidade, então: «ouve… eu não queria tocar neste assunto, porque é delicado e é do tempo dos meus pais, mas aqui vai…» – diz-me ele com ar sério – «primeiro foram os estúpidos dos alemães, depois foram os soviéticos, toda a gente queria um bocadinho da Áustria no século passado. Vieram para cá os ingleses, os americanos e os franceses e obrigaram-nos a assinar um compromisso de neutralidade para se irem embora daqui e para nos deixarem a salvo dos russos e dos húngaros. Sixas?» OK, deixa-me cá ver se eu percebi isto bem: os austríacos são neutros porque os alemães os meteram nas guerras sem eles pedirem e ainda os deixaram, depois, entregues aos soviéticos e aos húngaros e tiveram que ser os americanos a salvá-los. Portanto, a culpa é dos alemães. Portanto, os austríacos dizem «somos neutros», mas no fundo deviam dizer «somos-neutros-e-não-odiamos-ninguém-a-não-ser-que-sejam-alemães». De um momento para o outro perdi a vontade de embirrar com eles. Eu também me solidarizo nessa missão de achar os alemães parvos.

Salzburgo é uma cidade tão bonita que quase não se dá por ela. O centro está cheio de edifícios barrocos a espreitar para o rio, misturados com edifícios modernos e inteligentemente proporcionados. Dá vontade de não mexer em nada, não vá partir-se alguma coisa. Os arredores são ainda mais bonitos, com montanhas mais altas que qualquer Serra da Estrela, cabines de desportos de Inverno por todo o lado e casas de madeira, espaçosas, quadradas e de grandes telhados negros. Tudo limpo e arrumadinho, como se a empregada tivesse vindo trabalhar nessa manhã. Há uns lagos fantásticos, a perder de vista, suportando as montanhas de um lado e de outro. E a mim, que sou fino, hospedaram-me num hotel que é um castelo. Tão incrível e inacessível que não se chega lá de carro – levam-me numa lancha rápida, um passeio lindo e agradável que só não é mais lindo e mais agradável porque o frio corta-me os beiços como se estivesse a enfiar a cara num balde de gelo. Entra-se por um jardim que mais parece uma plateia para a Áustria inteira, depois passa-se por um túnel feito nas entranhas da rocha cujo caminho está marcado por velas e tochas e, quando já começava a imaginar uma recepção cheia de teias de aranha, com mobiliário antigo e morcegos a esvoaçar de um lado para o outro, dou com uma comissão de boas-vindas num moderno e impecavelmente remodelado lobby, cheio de mobiliário envidraçado e criativo.

Primeira inevitável curiosidade: quantos pedaços da minha biologia eu teria que entregar ao cozinheiro para pagar tão-somente cinco minutos de estadia naquele sítio? Nada. Procurei por todo o lado, não há uma única tabela de preços. Nem a Stiegl fresquinha que eu pedi no bar me deixaram pagar. «Isto é tudo negociado a priori», diz o relações públicas daquele espaço: «herr Didi não gosta de conversas sobre dinheiro. Não há uma única caixa registadora no hotel e todo o dinheiro que vais encontrar por aqui há-de estar nos bolsos de alguém».

Convém explicar: «herr Didi» é Dietriech Mateschitz, dono de uma bebida chamada Red Bull (bom, tecnicamente, não é assim dono, dono, dono… tem 49% do capital, mas é ele que tomas as decisões todas), multi-milionário, um boémio que não bebe nem fuma, mas anda sempre rodeado de mulheres que nem o Briatore conseguiu conhecer. Tem tanto dinheiro que é dono de mais de metade da cidade de Salzburgo, mas vive numa ilha das Fiji que comprou à família Forbes por 10 milhões de euros (e vai para lá de avião e é ele que «conduz»). Metade do aeroporto de Salzburgo é dele e inclui uma exposição de alguns dos aviões acrobáticos da Air Race (da Red Bull), carros de Fórmula 1 (da Red Bull) e o mais impecavelmente restaurado Piper Super Club que eu já vi (que não é da Red Bull, é dele mesmo, e ao que parece gosta de andar a passear com ele). Tem um hangar só para ele, onde está a reconstruir, pelo menos, um DC-3 e um Caravelle (e eu só consegui ver estes dois). O clube Casino de Salzburgo é dele e agora chama-se, vá-se lá entender porquê, «Red Bull Salzburgo». E a montanha do lado de lá de um dos 185 lagos da região é dele, precisamente aquela que tem oito castelos todos reconstruídos, que servem agora de hospedagem de luxo para individuais ou grupos. Negoceia à distância por antecipação e os preços a pagar incluem tudo, mesmo tudo, o que é serviço do hotel: cama, mesa, bar, piscina, spa, transporte, manicure, vernissage, patisserie, e outras porcarias em estrangeiro. O que é que faz num sítio como este um gajo como eu, que não tem dinheiro nem para mandar cantar o ceguinho do metro das Laranjeiras? É uma boa pergunta, mas que vão ter que a colocar aos senhores que me levaram até lá.

O hotel/castelo é gigantesco e o meu quarto é, obviamente e como manda a tradição, o último e mais longínquo do hotel. Quando saí do quarto para jantar, perdi-me três vezes nos corredores e parei a meio para tomar um aperitivo. Por duas vezes tinha a certeza do caminho e acabei na lavandaria. E ao jantar, ao qual consegui chegar 55 minutos depois de ter fechado a porta do quarto, reencontrei, finalmente, o meu interlocutor da hora do almoço.


- «Onde andaste, pá?»
- «A ver as vistas», disse eu, sem dar parte fraca. «Isto é lindo, o que é que há para não gostar num sítio como este?»
- «Hum… está sempre a chover.»
- «Sempre?!»
- «Quer dizer… quando não está a chover, está a nevar. Bom é lá para os vossos lados, onde está sempre sol.»

Bom, primeiro que tudo, tu não fazes ideia de onde eu venho, por isso, faz o favor de não me misturar com a horda de espanhóis que está aí ao teu lado a falar alto, a comer com as mãos e a cuspir perdigotos. Segundo, peço desculpa mas eu não trocava isto por um país cheio de sol. Aqui estamos na 10ª melhor economia do mundo, o PIB da Áustria não pára de crescer desde os anos 90 e é tudo tão organizadinho que parece a Suíça, mas para melhor.

- «Sabes…», diz ele enquanto lambe a espuma da cerveja do lábio superior, «isso é tudo muito bonito, mas não és tu que tens que passar a vida a ouvir a aturar os alemães, nem os turistas idiotas que aqui vêem à procura de sinais do Adolf».
- «O Adolfo… pois é, o tal que era assim meio abichanado e que levava porrada do pai quando era pequeno… nasceu por estes lados, não foi?»
- «Se andares 60 km para norte dás com a casa dele, em Braunau. É fácil reconhecer, mesmo à porta tem uma lápide colocada pelos austríacos que foi feita a partir da pedra de um campo de concentração, onde se faz um apelo do tipo ‘fascismo nunca mais’, mas que hoje está completamente vandalizada e pintada com suásticas pelos estúpidos dos neo-nazis alemães que aqui vêm em peregrinação».
- «Deixa lá… eu do Adolfo só gosto de me lembrar que um dia se matou, a ele e à Eva, cheio de medo de ser capturado pelos soviéticos, num bunker, em Berlim», tentei rematar, com uma gargalhada tão idiota que até a mim me assustou.
- «Pois… nós também…»

o

Monday, April 20, 2009

Dubrovnik é mais bonito que Sintra e dá para andar de T-shirt e calções

Sintra tem palácios e castelos e muralhas e coisas antigas e bonitas. Dubrovnik também. Sintra é património da UNESCO. Dubrovnik também. Sintra é bonita. Dubrovnik também. Em Sintra chove e faz frio. Em Dubrovnik não.

Sintra fica à beira do Atlântico e das suas águas frias e agitadas. Dubrovnik e as suas ilhotas adjacentes encavalitam-se no Adriático e têm águas quentinhas e mais sossegadas que um cadáver durante a autópsia.

À chegada a Dubrovnik somos recebidos com as boas-vindas numa língua que ninguém entende: «Dobrodošli na Hrvatsku». Não podia faltar, obviamente, aquele éssezinho irritante com um chapéu virado ao contrário. O mesmo que usam para pintar no chão antes das escolas primárias, para avisar o condutor para a proximidade de uma «škola». E, surpresa das surpresas, um magnífico slogan em inglês faz-nos saber que a Croácia é «o Mediterrâneo como um dia já foi». Uau, fantástico! Verdadeiramente surpreendente, tendo em conta que a Croácia é banhada pelo mar Adriático! (vá, vá, eu sei, o Adriático é parte do Mar Mediterrâneo, mas, que querem?, deu-me vontade de baralhar as referências… eu nasci na Papua e sempre me disseram que afinal era a Nova Guiné… não que eu alguma vez tivesse conhecido a Antiga Guiné…)

A única palavra relativamente perceptível na língua desta gente é «Torcida». É o nome que tem a claque de apoio do Hajduk Split, clube de futebol quase centenário de uma cidade que fica mais a norte e que tem uma impressionante milícia de apoiantes por estas bandas. Desde 1950 que a Torcida se chama «Torcida», essa palavra genuinamente croata.

Dubrovnik é um sítio tão bonito que dá vontade de meter no bolso e levar para casa. Ou então de convencer o comendador Berardo a dar aqui um saltinho para negociar uma troca: nós ficamos com Dubrovnik, os croatas ficam com Sintra, o Fernando Seara, o hospital Fernando da Fonseca, o Cacém, Massamá, o IC19, o Cabo da Roca e uma série de terreolas com nomes lindíssimos como Abrunheira, Ranholas, Algueirão, Pêro Pinheiro, Arrentela, Rinchoa, Fitares, São Pedro de Penaferrim, São João das Lampas, Magoito e Monte Abraão. Pronto, eu sei, a Arrentela fica no concelho do Seixal, mas, bolas, que mal fazia dar-lhes o Seixal como presente nesta operação de charme? E no fim das contas eles que não se queixem porque ficam claramente a ganhar – toda a gente sonha, um dia, poder viver numa terra que tem uma rotunda do Ramalhão, a Casa do Preto e as queijadas e os travesseiros. E passeios de charretes puxadas por cavalos que fazem muito cocó no chão (para quando uma lei que obrigue os donos dos cavalos a apanhar as bostas que eles fazem no chão? Isso é que era de coragem).

Dubrovnik é um local de gente doida que se veste aos quadradinhos da cabeça aos pés. (Uma questão: quadradinhos vermelhos sobre fundo branco dá quadradinhos vermelhos-e-brancos? Se sim, quais foram pintados primeiro?, os vermelhos sobre o branco ou os brancos sobre o vermelho? Se não, então por que raio se diz que o F.C. Porto equipa às riscas azuis-e-brancas?). Até as crianças, pobres crianças, andam na rua vestidas como o Boavista debotado. Mas é, na verdade, um sítio tão bonito que dá vontade de visitar e nunca mais parar, motivo pelo qual eu ainda aqui estou e não me apetece ir embora. Alguém fez a maldade de contratar uma visita guiada ao centro histórico e eu lá fui, claro, sob a ameaça de ser vendido como escravo para satisfação pessoal dos netos do Slobodan Milošević.

«O centro histórico» – começou por explicar a senhora, com o seu magnífico sotaque de quem esteve pelo menos três vezes em Alfeizerão, debaixo de um reluzente bigode arranjadinho, enquanto apontava para uma planta da cidade – «foi uma das partes de Dubrovnik mais fustigada pela artilharia durante a guerra». Qual guerra? Mas como é que alguém, algum dia, se lembrou de fazer guerras num sítio como este, onde só apetece mergulhar no mar e nadar sem parar até conhecer, uma-por-uma, todas as ilhas do istmo? Pelos vistos houve quem se tivesse lembrado e não foram poucos.

Aparentemente houve aqui uma guerra no início dos anos 90. Não sei como, escapou-me. Não dei por ela. Se calhar porque na altura eu estava a viver como um ermita juntamente com os pandas neo-zelandeses numa gruta das florestas de Hamilton e, como tal, não havia televisão. Mas houve aqui guerra. Dubrovnik forma uma península que é, no fundo, um enclave entre a Bósnia Herzegovina e o Montenegro (que fica do lado de lá de uns montes que são bem branquinhos, mas tudo bem). Como na altura toda a gente queria ser independente da federação jugoslava (incluindo os próprios sérvios, se bem que nunca admitiram), a Sérvia, dirigida por essa simpática e bondosa figura de seu nome Slobodan Milošević, pediu aos amiguinhos montenegrinos, chefiados pelo Momir Bulatović, que avisassem os habitantes de Dubrovnik para tirar o cavalinho da chuva, porque a cidade é um ponto de comércio demasiado importante para fugir às mãos dos gananciosos. Como os croatas lhes fizeram um manguito que deixaria orgulhoso o Jesualdo Ferreira, vai daí os sérvios mandaram o exército popular da Jugoslávia (sérvio, basicamente) disparar contra tudo o que mexesse.

Os sérvios, gente perfeitamente plural e justa, com um profundo conhecimento de estratégia militar, escolheram minuciosamente os seus alvos: centenas de obuses atingiram as muralhas da cidade, que, sendo medieval e bem construída, resistiu a tudo; um barco de pesca atracado na marina ficou feito em cacos, atingido por quatro projécteis de artilharia marítima, certamente porque os anzóis e as redes que tinha a bordo eram perigosíssimo material bélico; um MIG-21 sobrevoou dois pares de vezes uma irrequieta cruz de pedra situada no topo das montanhas adjacentes… e de todas as vezes que disparou, falhou rotundamente, de modo que o ostensivo símbolo católico lá continua a servir de provocação; o topo do edifício que hoje serve de hotel Hilton Imperial foi atingido e incendiado, uma decisão extremamente inteligente tendo em conta que, nessa altura, o prédio estava em reconstrução e não havia lá ninguém.

Nem tudo foi assim, perfeitamente ridículo. Infelizmente, houve coisas mais sérias e uns quantos civis foram mortos, se bem que nessa altura era difícil usar a palavra «civil», porque basicamente todos os habitantes de Dubrovnik, das senhoras da lota aos residentes do centro de dia, empunhavam uma AK-47 para repelir o opressor.

Mas há que dar um abraço de solidariedade a esta gente de Dubronvik, sabem? Resistem a tudo. Nem sequer havia um exército na cidade, e no entanto repeliram o inimigo. No século XVII resistiram ao Napoleão e às três mil balas de canhão que foram disparadas contra a cidade. Em 1667 houve um terramoto, mas resistiu toda a gente com excepção dos cinco mil que morreram. E, mais incrível que isto tudo, em 1545 a cidade resistiu, com enorme coragem e determinação, ao calvário de ter que acolher centenas e centenas de judeus refugiados de Portugal e Espanha. Se já é difícil lidar com judeus, imagine com judeus que são espanhóis. Que inferno…

A guia turística lá prosseguiu a sua prelecção sobre os acontecimentos da guerra, o sítio onde as bombas caíram e o espectáculo que foram os croatas, tanto os que se defenderam do inimigo com facas de cozinha, fisgas, inoculadores de asma e borrifadores de Ajax multisuperfícies, mas também os que depois reconstruíram a cidade antiga tal-e-qual como ela era, de maneira que hoje está tudo intacto, lindo, impecável, perfeito para agradar aos senhores da UNESCO. Fico tão impressionado com a reconstrução que:
1) desconfio que não houve guerra nenhuma e alguém me está a tentar enganar;
2) o governo grego devia fazer uma visitinha a estes senhores para perceber como pode ter as obras de restauro do Parthénon prontas antes da vindima;


Uma das formas mais divertidas e originais que os dubrovniquianos (ou dubrovniquenses? Ou dubrovnicos, simplesmente?) encontraram para colorir o processo de reconstrução da cidade foi pintar símbolos do Hajduk Split por todo o lado. O quartel dos bombeiros tem um (gigante), o posto dos correios também e as casinhas que servem de albergue às caixas ATM têm vermelho aos quadradinhos e faixas azul-e-vermelho a identificar a tal «Torcida». Cheguei a pensar que o Hajduk Split era, também, uma cadeia de bancos.

Vale a pena vir a Dubrovnik e ficar por aqui. Engolir golfadas de ar puro e gastar os olhos com o reflexo do sol nas águas do Adriático. Mergulhar os braços e apanhar ouriços-do-mar. Comer um gelado na esplanada do centro histórico, enquanto pensamos por que raio a porta de entrada se chamará «Pila». Não existem charretes como em Sintra, mas, vendo pelo lado positivo, não precisamos de trazer a gabardine nem andar sempre a olhar para o chão para evitar pisar cocó.
o

Para o improvável caso de alguém querer saber as coisas parvas que por aqui se dizem...

Coisas que se dizem assim por aí...

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