Este blog faz mal à saúde. Se conhece alguém com influência ou com um martelo de orelhas, mande fechar este blog. Não se admite tamanho atentado à integridade intelectual dos cidadãos. E à integridade física dos llamas chilenos. Nem que José Carlos Malato faça tanta cura de emagrecimento e apareça todo nú em festas gay mais gordo ainda. E não se admite que não haja quem arranje uma cadeira mais larga para o João Gobern se sentar

Wednesday, January 05, 2011

8 de Março é já aí ao virar da esquina e a idiotice do mundo desce ao carnaval de Torres Vedras

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Aparentemente o carnaval calha, em 2011, a 8 de Março. Já não falta quase nada, o que é uma pena. Todos aguentamos os incêndios no Verão, as cheias no Inverno, o acordo ortográfico, as eleições presidenciais, as medidas de austeridade, os anúncios do Pingo Doce, as músicas do David Fonseca, as séries e os filmes de vampiros, as opiniões sobre política do Marques Mendes, os livros do Sousa Tavares e o aumento dos impostos, mas se há uma parte do ano que não aguentamos é aquela em que todos os gajos parvos se mascaram de gaja feia e desfilam o orgulho da sua parvoíce pelas ruas de Torres Vedras.

Parece que o tema do carnaval de Torres Vedras 2011 é «A Selva», um tema que, de acordo com a organização, potencia «a carga satírica, de humor e de colorido, que é tradição do carnaval de Torres». É curioso que, para algo que se chama «carnaval» e tem o mote em algo com elevada «carga satírica, humor e colorido», as reacções bizarras dos foliões têm tendência para se transformar com frequência em ira, má-educação e verborreia ao visitar este humilde e desconexo blogue.

Salvo algumas briosas demonstrações de fair play, devidamente assinaladas em seus devidos espaços nas listas de comentários e com reconhecimento da inteligência de quem os fez, todos os fiéis visitantes ocasionais deste espaço se preocupam em despejar o seu mau-português e chorrilhos de palavrões para criticar quem diz (escreve) que o carnaval de Torres Vedras é, digamos, parvo. Porque é, meus amigos. É uma má desculpa para a parvoíce. Há aquela parvoíce que é vocacional, que não está ao alcance de todos e que só deve ser exercida mediante apertada vigilância média (estou a ir bem, doutor?...), e há aquela parvoíce que é involuntária e contagiosa. É o que acontece no carnaval de Torres Vedras, em que a «carga satírica» se transforma rapidamente numa desculpa para ser descaradamente ofensivo com tudo e com todos sem controlo aparente, o «humor» é singelamente inflamado por litros etílicos que de tudo fazem rir, mesmo do que não tem piada, e o «colorido» é, regra geral, acastanhado, por causa do acumulado de vomitado nos cantos e pela quantidade de lixo que fica depositado nas ruas.

Bem vistas as coisas, o carnaval de Torres Vedras é uma má desculpa para encapotar a estupidez natural de muita gente que, ao abrigo do suposto «carnaval», finalmente se revela no decorrer dos chamados dias de folia. Vestidos de mulher, normalmente.

Meus amigos, é carnaval, ninguém leva a mal. E vocês, que levam, são bastante parvos.
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Monday, January 03, 2011

A República Dominicana é a praia mais bonita do Haiti, mas cuidado com as pilhas

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O sol queima com intensidade; o pouco ar que corre é abafado; as senhoras turistas atropelam-se para irem apanhar um pareo garrido e feio; os locais, de pele escura e suja e sebenta e cheiram mal, não nos deixam em paz a querer vender porcarias que não queremos comprar; não, não é a feira de Carcavelos num dia de Verão, é apenas uma singela praia na República Dominicana. Qualquer uma serve. Todas têm esta envolvência.

A linha das palmeiras define a fronteira entre o areal e o mar. Define, também, a linha entre chatear ou não chatear os turistas: entre a primeira fila de espreguiçadeiras e a dócil rebentação do mar do Caribe, naquela tira pequena de areia molhada, circulam pelotões inteiros de haitianos a tentar vender de tudo, desde o sol à lua, passando pela mãe, as irmãs, o dente de ouro de uma tia, uma ilha qualquer no Pacífico, um camião roubado à ONU, duas vacas sagradas, uma avestruz do Paquistão, um Cadillac que pertenceu a J.F. Keneddy mas só depois de morto, um vestido que pertenceu a Lady Gaga quando ainda era homem e uma galinha que é prima do coelho da Páscoa e põe ovos de chocolate. Lá pelo meio até dizem a verdade, que têm bonito artesanato para vender. O problema é que, como eles não podem, fisicamente, vender nada na praia, têm que convencer os turistas a ir visitar as suas barracas… perdão, superfícies comerciais, aglomeradas naqueles 170 centímetros de praia que não pertencem aos hotéis. Os estrangeiros que acabaram de chegar vão atrás deles, cheios de boa vontade, perdem 20 minutos, gastam 70 dólares e voltam com uma máscara de bambu que se parte toda, um berimbau que não toca, um íman que não agarra ao frigorífico e um pareo que debota assim que se lava.

Felizmente, tudo isto é relativamente pacífico e, a partir do momento em que aprendemos a ignorar os haitianos, a estadia na praia é excelente. Mas a sensação do sossego não é imediata porque, convenhamos, não é todos os dias que se deita a toalha na areia de uma praia com um polícia em cada palmeira. Primeiro vem a desconfiança de que algo se passa ali, depois vem a aprendizagem: esperamos até que haja uma brecha entre os grupos de haitianos que andam para trás e para a frente e corremos para o mar. Eles não vão lá dentro, nós só saímos de lá quando eles não estão na areia molhada. E assim se vive calmamente, com a certeza de que os polícias estão na praia para nos proteger e não para nos multar por termos estacionado mal a espreguiçadeira. Até havia um polícia que estava na praia especificamente para avisar os turistas que havia uma palmeira em risco de cair. «É bom que eles mostrem a sua presença na praia, porque impõe respeito», disse-me Angel, um autóctone do qual não me lembro do apelido, e que por isso a partir de agora passa a ser referido como Angel My Friend: «Isto aqui já esteve muito pior. Depois do terremoto [no Haiti], eles [os haitianos] vieram para este lado [da ilha] e começaram a roubar-nos [aos dominicanos] quase tudo. Começaram a vender nas praias, a aborrecer os turistas, a praticar furtos, de maneira que as cadeias de hotéis começaram a pagar um suplemento especial à polícia para vigiarem as praias». Criou-se uma espécie de convivência tolerante, mas apenas para quem tolera hordas de haitianos a sugar recursos como uma sanguessuga no braço de um americano dentro de uma casa de hambúrgueres.
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«Eh, pá! Este blogue é cruel como o caraças, não tem pena dos haitianos que ficaram sem nada desde o terramoto e até têm cólera e mais o raio que parta…»

Bom, se você, que está a tentar ler isto, leu a frase anterior e ela fez algum sentido dentro da sua cabeça, se calhar é melhor que eu lhe explique algumas coisas primeiro. Pode ser?
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Ponto um: os haitianos não têm pena deles próprios. «São seres revoltados por natureza, até os que têm uma vida aceitável e estão integrados no nosso país, com a sua casa, com a sua família, com o seu sustento, até esses são revoltados e conflituosos». Quem o diz é o Angel My Friend, de quem não tenho motivos para achar que o diz da boca para fora. O Angel é um rapaz dominicano educado, com estudos, com frequência em ensino qualificado universitário, com a ambição de se especializar em relações internacionais num intercâmbio qualquer na Europa. Nem sequer é como a maior parte dos dominicanos, que sonha um dia viver nos Estados Unidos, embora saiba perfeitamente que nunca vai pôr um pé fora daquela ilha. «Gostava de ter uma carreira e ficar lá por fora, ter uma família», diz, sem saber que na Europa as pessoas vivem encavalitadas umas nas outras, faz um frio de rachar, chove e neva, é tudo caro e ninguém vive contente. «A ambição do dominicano médio é ir para Miami. A ambição de um dominicano pobre é um dia poder fazer uma viagem fora do país. A ambição do haitiano é viver deste lado da ilha e armar zaragatas com toda a gente», acrescenta. Estima-se (não eu, que nunca soube estimar nada) que haja uns dois milhões de haitianos a viver na metade direita da ilha, que, para quem não sabe, se chama República Dominicana. Desses dois milhões, três estão ilegais. Mas são contabilizados para os quase dez milhões de habitantes do território. «Eles ficam com os cuidados básicos de saúde, com toda a assistência social, com tudo o que é dinheiro do governo para ajuda ao povo», diz o Angel My Friend, sem raiva, mas com o ressentimento natural de quem percebe que, para estar doente, tem que ter um seguro de saúde pago pelo patrão. A mãe e o pai, diz, não têm. Se ficam doentes, vão para a mesma fila dos haitianos. E ele não está a exagerar. Uma turista do hotel teve gripe, foi ao centro de saúde do hotel e teve que accionar o seu seguro de viagem, caso contrário a médica não a tratava. Uma embalagem com três cápsulas anti-gripais custou 23 dólares. O descongestionador nasal custou 30 dólares. A consulta custou 97 dólares mais 20 dólares da chamada telefónica para o seguro, que pagou tudo. A turista, no dia a seguir, já andava aos saltos dentro de água. «Se fosse um haitiano, ia para a fila das urgências até ser atendido. Mesmo que, quando fosse atendido, já nem sequer estivesse doente», sublinha o Angel My Friend.

Ponto dois: os haitianos não servem para nada e só estragam. Mas espalham doenças ou isso? «Não, nada disso», esclarece o Angel: «eles nem gostam de se misturar com os dominicanos. Mas eles arruínam-nos o país. O governo dominicano até lhes paga para determinadas coisas, e eles fazem tudo para estragar». Não fiquei muito convencido e pedi-lhe para detalhar. Então fiquei a saber que o governo dominicano paga, vamos imaginar, 350 pesos por semana a um haitiano para ele trabalhar nos sectores em que os dominicanos se recusam a trabalhar a 500 pesos por semana. «Eles vêm, fazem o que lhes pagam para fazer, mas de caminho destroem a habitação social em que os põem a dormir, cospem no chão do autocarro que os transporta, estragam comida de propósito, são eternamente revoltados», diz o Angel. [Em defesa dos haitianos, é importante dizer que aquilo a que o rapaz se refere como ‘habitação social’ qualifica-se como ‘barraca’ em qualquer sítio da Europa] O principal motivo pelo qual o governo dominicano contrata haitianos é porque nenhum dominicano quer esse trabalho de baixa qualificação que é cortar cana-de-açúcar. É por isso que os haitianos recebem uma licença especial de permanência durante o período de contratação, que pode ir de oito a vinte e quatro semanas, mas nunca é cumprido para lá das doze. «O que acontece», explica o Angel My Friend, «é que eles trabalham semanas suficientes para ganharem algum dinheiro e, assim que têm o suficiente, voltam para o Haiti, onde eles e a família se podem embebedar como lordes durante três meses, porque o dinheiro que levam daqui, lá, é uma fortuna». Mas isso são todos? Tem que haver excepções. «E há. Há os que trabalham até terem dinheiro suficiente para construírem uma barraca e se sustentarem por cá».

Ponto três: há quem diga que os haitianos só tiveram o que mereciam e, apesar da citação ser parva, nem sou eu que a digo. O Angel explicou-me que há uma corrente de opinião, dentro do próprio Haiti, que segue a ideia de que o terramoto não teria sido tão violento se o Haiti tivesse alguma coisa para o amortecer. «Já viste alguma imagem de satélite desta ilha, para veres a diferença entre o território do Haiti e o da República Dominicana?», perguntou-me. Ó Angel, My Friend, eu nem sei o que é um satélite, quanto mais alguma vez ter visto a imagem de um. «O lado do Haiti não tem nada, não tem árvores, sequer. Eles cortaram árvores durante anos e anos para fazerem esculturas em madeira, para produzirem carvão e lenha e madeira para tudo e mais alguma coisa. Com isso, tornaram-se nos maiores exportadores de artesanato em madeira. Ao ponto de andarem a exportar elefantes de madeira em tamanho real». Para isso, de facto, é precisa muita madeira, de tal modo que, quando o terramoto veio, chocou de frente com um pedaço de ilha cheio de nada, só com barracas frágeis, sem relevo natural para absorver o safanão. Eu nem sequer sei se esta teoria é válida e faz algum sentido, mas, sinceramente, serve-me bem como explicação para o desastre. E, sinceramente também, estou sem paciência para investigar se é verdade. Estou com mais vontade de ir conhecer este lugar.

Preciso de trocar de cicerone e o Angel indicou-me um rapaz que sabe tudo sobre a ilha e fala tudo, espanhol, inglês, francês, alemão, italiano, caribenho e depressa. Eu, infelizmente, não percebo patavina de nada, só o entendo por gestos. Chama-se José [diz-se «Ró-Cé»]. José quê? Não faço a mínima ideia, porque o abecedário gestual é complicado de compreender, mas a partir de agora chamo-lhe José, O Tímido. Porque tímido é tudo o que ele não é. No início do périplo pela ilha, José disse tanta coisa que eu quase não consegui dispersar a atenção para olhar pela janela e ver a paisagem. Mas lá fiquei a saber que os talhos dominicanos penduram a carne cá fora. Para quê? «Ninguém aqui tem dinheiro para pagar grandes arcas frigoríficas ou a electricidade que ela custa, de maneira que a carne é posta a secar ao ar [e às moscas, acrescento eu], depois de ser devidamente salgada para se conservar como deve ser». A parte de não quererem gastar electricidade eu até percebo, porque assim os dominicanos preferem guardar a luz para ouvir os discos do Juan Luis Guerra e jogar dominó noite dentro. Mas a parte de deixarem a carne na rua… porque ela se conserva melhor, é que me faz espécie. «Deixa lá, é uma carne deliciosa. Olha, a carne que é fornecida ao hotel em que estás vem destes talhos», disse o tímido. Pelo sim pelo não, comi peixe até ao fim da estadia.

A propósito do dominó, fiquei a saber que esse é o desporto número três dos dominicanos. A sério? Então mas e o futebol, esse desporto tão universal?, perguntei eu. «Ah, aqui ninguém liga muito a isso. Aqui é Baseball». Faz sentido. Os dominicanos param ao sábado para ver os jogos do Baseball americano (onde jogam vários compatriotas; e até jogam bem, pelos vistos; apesar de, recentemente, ter havido um que levou com uma bola e ficou sem um olho). Mas também param às quintas para ver lutas de galos e em qualquer altura para jogar dominó. «Para o resto, estão-se a borrifar», diz José. Mas luta de galos nem sequer é um desporto!, noto, com indignação ignóbil. «Claro que é. Há criadores de galos que se suicidam por causa de um mau resultado de um capão seu. E correm ao lado dos galos, preparam-nos, lutam com eles. É desporto nacional». Sim, sim. Desporto nacional, pois sim. Na ala de doentes mentais, talvez. Não estivesse ela cheia de haitianos. A verdade é que se percorrem quilómetros e quilómetros sem se avistar um único campo de futebol, mas vê-se uma meia-dúzia de campos de Baseball e dominicanos por todo o lado a jogar dominó.

O que também se vê por todo o lado são moto-táxis. Como o próprio nome indica, são motos que servem de táxi. Estranha o conceito? Dois ou três moços com uma moto tipo Zundapp param numa esquina vestidos com um reluzente e sebento colete fluorescente, com as palavras «MOTO TAXI» escritas atrás. Quem precisa de boleia (as povoações na República Dominicana são todas longe umas das outras) paga, monta-se atrás na moto e vai à sua vida. O conceito é simpático e não é inédito. [o negócio que mais cresceu na cidade de Paris nos últimos três anos foi precisamente o do moto-táxi] Mas os moto-táxis dominicanos falham em alguns detalhes básicos: na maior parte das motos, só cabe o condutor, o pendura vai com o rabo num pedaço de chapa; a maior parte das motos não tem poisa-pés para o pendura, que vai com os pés no escape; a esmagadora maioria dos penduras apanha moto-táxi mesmo que esteja carregado com os sacos das compras ou outras porcarias; há motoristas de táxi que aceitam levar mais de uma pessoa; ninguém usa capacete, mesmo que as estradas tenham buracos e lombas que assustam qualquer jipe; e o mais assustador é o aspecto horrível dos motoristas, qualquer um deles digno de ser protagonista do «Machete».

A República Dominicana é famosa pelo turismo e não admira, porque as praias são óptimas e a água é bestial. O Mar do Caribe é tão revolto e violento como, digamos, a Lagoa de Albufeira (que, por acaso, não fica em Albufeira, e sim no Meco) antes da troca da maré. A Lagoa mesmo, não a parte da praia de mar. Ou seja, é calminho, calminho, calminho. Só que a água do Mar do Caribe tem uma temperatura mais elevada do que muitas sopas que eu já aqueci no micro-ondas. E o sol torra mesmo. Vi um inglês que, entre descer do barco e fazer aqueles cinco metros a pé até à praia, passou de branquinho como o leite a vermelho como um lagostim. Na viagem que fiz com José, O Tímido, fui a Bayahibe apanhar uma lancha rápida para uma ilha qualquer mais a sul que ele me descreveu como sendo espectacular. De caminho, por cima de águas transparentes em que até se conseguem ver as estrelas-do-mar pousadas no fundo, foi-me dizendo: «sabes, em tempos, nestas águas e nesta ilha que te vou mostrar, foi aqui que filmaram as cenas do filme ‘A lagoa azul’ com a Brooke Shields». Ó Tímido, estás a gozar-me, não estás? Esse filme foi filmado numa ilha qualquer das Fiji e em Vanuatu! Eu sei isso porque eu vivia em Vanuatu nessa altura! Eu vi as filmagens da minha cama de rede!… humpf!, adiante. Chegámos à tal ilha, que se chama Saona. E… A-HA!!... isto sim, é famoso! A célebre palmeira inclinada onde foram feitos os anúncios da Bounty! Isso não me contaste tu, ó Zé cicerone de trazer por casa.

A ilha de Saona não tem nada de especial. É uma ilha, pequena, cheia de palmeiras, areais e praias incríveis, pode atravessar-se de um lado ao outro a pé e mergulhar por todo o lado. Parece espectacular (e na verdade, até é um bocadinho), mas como esta existem 300 ilhas nas Caraíbas. Tem uma enorme vantagem, que é o facto de ter praias verdadeiramente sossegadas, sem colunas de som aos berros com música para turista, com muito menos haitianos que as outras e sem progresso aparente à vista. Estão registados 300 habitantes na ilha, mas por lá não pernoitam mais de vinte. E os que o fazem, são os pescadores. De todos os que lá dizem que vivem, nenhum é descendente dos colonizadores originais. E, para mim, o que a ilha tem, de facto, de especial, é a sua história.
A ilha chama-se «Saona» porque o Cristóvão Colombo, único navegador em toda a História a ter um nome com dois acentos gráficos, decidiu chamar-lhe assim no dia em que a descobriu, em Maio de 1494, andava ele a tentar descobrir a América pela segunda vez. O Cristóvão era um rapaz perturbado e bastante parvo que, para além de querer descobrir continentes em duplicado, andava a tentar pôr ovos de pé. Naquele dia, Colombo nomeou um amigo seu, Michele de Cuneo, o primeiro governador da ilha de Saona, dando origem ao primeiro «Job for the Boy» da História da Política. Michele de Cuneo era da Ligúria, na zona italiana da Cote D’Azur, mais precisamente de uma terra chamada Savona. Foi esse nome que foi atribuído à ilha: «Savona». Mais tarde, um nativo desdentado chamou-lhe «Sa’ona», e foi esse nome que perdurou no tempo. Durante séculos, ninguém quis saber da porcaria da ilha para nada. Só os piratas é que gostavam dela, porque ali podiam estabelecer um poiso enquanto atacavam embarcações que cruzavam o Caribe, mas nem eles podiam lá ficar por muito tempo, porque acabavam sempre por apanhar uma praga de cólera ou escorbuto e morriam todos de empreitada. Os únicos habitantes que perduraram ao longo do tempo foram os javalis, mas em toda a minha estadia em Saona não vi um único. E ainda bem, não fosse aparecer o anúncio idiota com o ainda mais idiota do Nuno Markl a fugir do javali.

A ilha de Saona só se tornou minimamente interessante em 1944, andava a Europa às turras por causa de um senhor baixinho de bigode e andavam os americanos a tentar defender-se daquilo que eventualmente podia atravessar o Atlântico para lhes vir dar um grande tau-tau. Pudera, estavam escaldados depois da cagada que fizeram no Hawaii, quando um punhado de japoneses irrequietos lhes destruiu o orgulho e parte da frota do Pacífico, num ataque surpresa que só não foi remédio santo porque o almirante da empreitada nipónica achou que era hora de ir tratar dos bonsais e mandou cancelar a terceira vaga do ataque a Pearl Harbor. Durante uns anos, os Estados Unidos andaram a tentar «comprar» ilhas estrategicamente posicionadas à porta do Atlântico. Por «comprar», entenda-se «ocupar», porque há muito tempo que os américas têm a mania que são donos do mundo e então ocupam tudo o que acham que lhes faz falta. Ou acham que aquele pedacinho de Cuba lhes foi oferecido pelo Fidel? [bom, por acaso a baía de Guantanamo até foi uma prenda de Cuba para os americanos no início do século, mediante o pagamento de uma mensalidade de cinco mil dólares por ano; o Fidel tentou várias vezes desfazer a burrada do seu antecessor, mas em vão] No início de 1944, os americanos tinham ocupado a ilha de La Mona, que ficava ali algures entre a Jamaica, Porto Rico e a Nazaré. Para evitar que fizessem o mesmo com Saona, o ditador Trujillo Molina mandou colonizar a ilha (à altura, deserta) por intermédio de 12 famílias escolhidas a dedo por ele (apontou para a lista telefónica e escolheu). «Foi uma forma educada de dizer aos Estados Unidos que não sem dizer que não», diz José, O Tímido: «ninguém dizia que não aos americanos, nem mesmo um ditadorzinho armado em mau como o Trujillo. Dessa maneira disse-lhe que não podia dar-lhes a ilha porque havia gente que vivia lá». Durante anos e anos e anos a ilha de Saona foi habitada por gente maluca, em resultado da consanguinidade que havia por lá, uma vez que eram todos filhos e irmãos e primos uns dos outros e era uma rebaldaria pegada.

No regresso, José quis mostrar-me as coisas mais típicas da República Dominicana. A «Mamajuana», uma aguardente manhosa feita com pedaços de madeira a marinar dentro de uma garrafa; os bolinhos fritos típicos; rolinhos de carne; rum meloso. Enfim, nada que se aproveite. Levou-me à cidade de Higüey, para ver a catedral de Altagracia, mas eu vi tanta barraca, tanta moto, tanto buraco, tanto dominicano e tanta carne pendurada que decidi cancelar o passeio seguinte a Santo Domingo, por respeito com as minhas entranhas. Fiz as malas para vir embora porque achava que já tinha visto tudo. Mas faltava o toque final: no aeroporto, o fiscal de segurança agarrou-me nas pilhas da máquina fotográfica e disse-me «o senhor não pode viajar com isto».

Bom… vamos lá com calma. Primeiro que tudo, quem é esse do «senhor»? Quer ofender-me? E depois, não posso viajar com as pilhas porquê? «Ah, porque isto dá para fazer bombas perigosíssimas», disse o homem, por debaixo do seu aparadíssimo e ridículo bigode. Bombas?? Mais quais bombas? Bombas de mau cheiro? Bombas químicas com os dois mililitros de líquido químico que existe dentro delas? E faço-as explodir com o quê? Com a força da mente? «No puede, no puede, no puede»… Mas no puede porquê, ó Juan Luis Guerra de farda?! Já viajei para todo o lado com a porcaria das pilhas. São pilhas recarregáveis, que os idiotas dos fabricantes de baterias resolveram fazer para proteger o ambiente e para não obrigar o Planeta a ter que reciclar milhões de pilhas gastas todos os anos. São mais caras que as outras, porque são recarregáveis. E por acaso até estão… DESCARREGADAS! Percebes, ó artista! «No puede, no puede».

Perante tanto no puede e o olhar indiferente dos dois polícias que estavam mais atrás, as pilhas ficaram mesmo no caixote do lixo da sala de embarque. Cá em baixo, na sala de embarque propriamente dita, uma loja tinha sido assaltada e ainda havia cacos de vidro no chão para toda a gente se cortar à vontade. Lá fora, junto aos aviões e aos reservatórios de jet-fuel, grupos de pessoas fumavam sem qualquer restrição. No canto do free-shop estava um expositor com – nada menos do que – 86 pilhas embaladas e prontas a vender. Mas as minhas oito pilhas, recarregáveis, caras e mais viajadas do que eu próprio, tiveram que ficar no caixote do lixo. Deve ser uma tradição dominicana qualquer que eu não captei.
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Wednesday, August 25, 2010

Ele há grandes monstros da comunicação. E se há pessoa que o é, é o Henrique


Eu não sabia quem era o Henrique Sá Pessoa até uma colega de carteira me ter dito que ele é cozinheiro e aparece na televisão, nos anúncios do Pingo Doce. Como os anúncios do Pingo Doce estão cada vez melhores, preferia não ter sabido quem ele era.

Sugeriram-me que visse o programa de TV em que ele é interveniente. Confesso que até hoje nunca consegui encontrar o referido programa de televisão. Um anjo qualquer tem sido capaz de me proteger ao longo destes tempos e não tenho tido o infortúnio de o encontrar enquadrado numa caixinha preta com LED brilhantes.

Parece que ele aparece bastas vezes em revistas. Como eu não sei ler, não compro revistas. Nem jornais.

Entretanto, quando já estava convencido de que tinha uma vida pacata e feliz por não saber quem é tal pessoa chamada Pessoa sem ser o Pessoa da História, «cruzei-me» com ele num spot de rádio. O problema de se ouvir rádio durante uns dias é que ao final do segundo dia já sabemos alguns anúncios de cor. Mesmo os que não queremos.

Há dois spots de rádio, com publicidade a um banco, feitos por esse enorme monstro da comunicação chamado Henrique Sá Pessoa. O primeiro diz mais ou menos isto (peço desculpa se não o reproduzo fielmente, mas roubaram-me a memória desde o raide das tropas do Hugo Chávez na fronteira com a Colômbia):

«...bla, bla, bla, o banco ideal para quem adora cozinhar, fazer televisão e bla, bla, bla, bla...»

O outro diz, grosso modo, isto:

«Eu além do restaurante, também tenho o programa de televisão, escrevo livros e, mais importante que isso, sou pai da Inês. Mais ocupado é difícil [com um tremelique na voz a imitar um sorriso jocoso]. E se ainda tenho tempo para vir a estúdio fazer este anúncio [outra vez armado em gozão como se estivesse a tentar rir] é porque tenho um banco que trata da minha bla, bla, bla, bla...»

Bom, tentando desmontar os spots publicitários feitos por Henrique Sá Pessoa, deixo as seguintes questões, se ele me puder responder:

- 1º: caro Henrique, «fazer televisão» é construir aparelhos de TV?
- 2º: «eu além do restaurante» quer dizer que há um outro Henrique Sá Pessoa além do restaurante? (Deus nos valha) Ou que tem dupla personalidade? Ou anda a dar-se demasiado com a Alexandra Solnado e tem um restaurante que fica no Além?
- 3º: o meu caro amigo escreve livros? Mas escreve-os mesmo? À mão ou carrega nos botoezinhos da máquina de escrever? Será que não manda ninguém escrever por si?
- 4º: «Mais ocupado é difícil»? Olhe que não é. Há pessoas muito mais ocupadas na vida. Há pessoas que têm três empregos e ainda têm que tratar da família. E mesmo as que só têm um emprego não passam o dia a enfeitar pratos com beterraba marinada em molho de aniz e raminhos de salsa com cobertura de casca de limão ralada.
- 5º: Se ainda tem «tempo para ir a estúdio» gravar anúncios, é porque é, digamos, fanfarrão. As pessoas realmente ocupadas não têm tempo para essas mariquices. As pessoas realmente ocupadas têm o tempo livre que se esforçam por ter e, garanto-lhe, não é uma instituição bancária que o arranja. Se o senhor afinal até tem tempo livre, em vez de gravar anúncios porque é que não se ocupa a fazer alguma coisa útil? Tipo servir refeições aos sem-abrigo?
- 6º: [esta não é exactamente uma pergunta] Desista da carreira de comunicador. É péssimo nisso. Quase tão péssimo como a fingir que se está a rir enquanto fala. Ah, é verdade: tem uma voz francamente má e uma dicção terrivelmente pior. Para ser o Jamie Oliver português, tinha, pelo menos, que ser... (como é que é a tal palavra?)... bom. Nem era preciso ser brilhante.

Não conheço o prosado senhor. Não sei se o Henrique Sá Pessoa é boa ou má pessoa. Mas tenho que confessar, com a maior das sinceridades, que sou um grande, enorme, profundo admirador do director de marketing que fez dele a grande figura que é. Se me puderem dar o contacto dele, eu agradeço.

Tuesday, August 03, 2010

Blog reactivado com promessas de ano novo. Em Agosto

Para celebrar a reactivação deste blog, depois de uma tentativa de um torreverdiano de o contaminar e eliminar (não correu nada bem, isto não só ficou de pé como continua a meter nojo), fica aqui assente a promessa de não voltar a falar mal do carnaval de Torres Vedras. Até Janeiro, pelo menos.

Wednesday, July 28, 2010

Aviso: este blog está ao abandono e foi atacado por uma vaga de spam

Tenham calma, torresverdianos (o novo nome para os torreenses parvos que vêm aqui ofender o autor do blog). Não vos estou a considerar spam, embora tenha enviado uma nota com todos os vossos IP aos senhores que tratam dos bloqueios de serviço.

Acontece que a crise ataca todos e os outros rapazes que faziam este blog comigo foram contratados pela concorrência. Agora escrevem num blog que diz bem sobre o carnaval de Torres Vedras.

Friday, March 26, 2010

Vendemos cocos, vendemos água, vendemos areia da praia, vendemos o sol, até vendemos a mãe se prometerem que nos pagam


Ainda não são quatro da tarde e o sol ameaça baixar para só voltar na manhã seguinte. Mas hoje, especificamente neste dia, agradeço que o faça. Até as pessoas de cá estão com calor, o que não deixa de ser surpreendente, tendo em conta que, para eles, um dia de Verão com 35 graus Célsius é um dia fresco e um dia com 27 graus é um Inverno rigoroso. Pois estavam 44 à hora do almoço. E 32 às 7h30 quando fui dar o primeiro mergulho, porque já não aguentava de calor.

Chamam-lhe Terra de Vera Cruz, o que é um logro. Parece que o Pedro Álvares Cabral, quando escolheu o nome para este pedaço de terra, achava que tinha encalhado numa ilha, que chamou de Santa Cruz. Quando descobriu que, afinal, o areal era maior que a Europa, resolveu emendar, dizendo que os indígenas é que tinham percebido mal: «não é Santa Cruz, seus arraçados de ciganos! É Vera Cruz! Vera! Quem é que disse que era Santa, pá?!». Para mim, não é terra de santa nem de vera. Para mim, é terra do bafo. Faz um calor que não se aguenta.

O que tem de mais espantoso um mergulho às sete da matina, para além do facto de ficar com a ideia que alguém mandou aquecer o oceano para eu poder tomar banho, é ver os empregados das barracas de praia a varrer. A varrer a barraca? Não, claro que não. A varrer a praia, mesmo. Um rapaz, bronzeado e mal arranjado de cara, estava a limpar o areal em frente ao estabelecimento comercial e junto aos chapeuzinhos-de-palha. A varrer o lixo? Também não. Estava a varrer os limos. Acho que nunca ninguém lhe explicou que os limos, apesar do aspecto de peruca de bruxa ou de damaiense com o cabelo por lavar há três anos, são organismos vivos. São algas, para todos os efeitos, e utilizam a sua própria energia para fazer a fotossíntese. Mas para o Júnior, que se lixe, é tudo lixo. Pelos vistos, para o patrão dele também, porque estava aos gritos com ele, que eram quase oito da manhã e o areal ainda não estava limpo. Disse-o agitando vigorosamente o balde onde ele devia amontoar o lixo. Os limos, portanto. E gritou com ele em voz alta, num português que não era nem português do Brasil, nem português do Algueirão, nem português da Suécia. Era português da Jamaica. O dono da barraca de praia nasceu em Kingston, mudou-se para Tenerife, conheceu uma portuguesa de Faro, foram viver juntos para os Barbados até ficarem falidos e finalmente radicaram-se no Brasil onde montaram uma barraca de praia. Vivem lindamente e dormem numa espécie de mezzanine em madeira por cima da copa (quer dizer, acho que dormem, não fui lá confirmar). Um casal estranhíssimo: ele é magrinho, negro, mais escuro que a noite sem lua, e só veste linho do mais branco que eu já vi; ela é branquinha, alta, avantajada, cabelo moreno, longo e encaracolado; ela pinta, desde os paus da barraca a quadros lindíssimos que ficariam mal em qualquer parede; ele grelha uns robalos ao sal bestiais.

Lá pelas dez da manhã, depois de um magnífico pequeno-almoço de frutas de todas as cores e sabores – incluindo acerola, uma fruta bestial, parecida com a cereja mas com cheiro a maçã e sabor pior que o de um limão – resolvi explorar essa tal de praia em frente ao hotel. É uma praia que, para terem uma ideia, começa numa baía situada uns quatro quilómetros para norte e acaba, digamos, na Argentina. No entanto, de uns 500 em 500 metros há uma barraca de praia e, só por isso, o areal ganha logo um estatuto diferente. E passa a ter outro nome, também. Apesar de ser rigorosamente o mesmo areal, sem pontões nem rochas pelo meio, a praia do Serpenjão e a praia do Arimogim são duas praias diferentes (peço desculpa, mas os nomes das praias são fictícios, não me lembro dos nomes verdadeiros; a minha memória já não é o que era e, antes, pelo menos tinha uma película magnética que gravava as informações pertinentes; hoje é apenas um alguidar cheio de trampa sem interesse). Investi em mais um mergulho naquelas águas magníficas, aquecidas como se fosse uma sopa para canibais. No entanto, como a minha pele é quase tão bronzeada como a de um inglês que nunca saiu de Stratford, achei mais prudente garantir um lugar à sombra para não ficar a parecer um lagostim quando tivesse que ser apresentado ao governador, nessa mesma noite.

- Júnior! Tem lugar à sombra?
- Ô doutor, aqui só não tem é dinheiro – disse o tal do Júnior, enquanto tirava a sua t-shirt e exibia o corpo tão musculado como uma saca de cimento esquecida numa obra desde 1982. Confesso que tive medo. Pensei que ele tinha entendido mal e queria utilizar-me para qualquer fim carnal à sombra de uma palhota, mas afinal não. Ele tirou a camisola para pendurar no chapeuzinho e marcar como ocupado. Passado dois minutos apareceu com uma t-shirt nova. Parece que é adereço do estabelecimento comercial: em vez de marcar os lugares com um «reservado», marcam com um trapo dependurado. Está certo. Tentei sossegar por ali uns minutos, sentadinho, a tentar respirar a atmosfera de tanto mar à minha frente e tanto sol por cima do chapéu-de-palha. Tentei, apenas. Primeiro, não estava a ser capaz de respirar em condições, porque o bafo seco da temperatura estava a bloquear-me as tubagens de amianto que servem o meu sistema respiratório artificial; segundo, porque ao fim de três minutos já tinha tido que aturar vendedores de pulseiras, colares, anéis, brincos, relógios, óculos, biquínis fio-dental (haviam de me ficar um espectáculo!), tatuagens, queijo derretido, algodão doce, alcatifas, chapéus, CD’s de música pimba, iguanas embalsamadas, colheres-de-pau-brasil, camarão-em-espetada e água de coco. Um deles tentou convencer-me a contratar os serviços de uma menor e outro sugeriu que a sua própria mãe pudesse ser a minha guia turística durante a minha estadia, o que deu todo um novo sentido à expressão «vender a própria mãe». Quando apareceu a senhora que queria pôr-me umas missangas no cabelo, achei que era demais e fui para um mergulho.

- Júnior, tem caipirinha? – perguntei quando voltei ao chapéu-de-palha.
- Ô doutor, aqui só não tem é dinheiro.

Uma refrescante bebida e mais uma animada ronda de rejeição a todos os vendedores de tralha que insistiam em incomodar-me e lá veio o cheiro a peixe. Grelhado, bem entendido. O dono da barraca de praia estava a começar a grelhar peixe para o almoço – eram isto umas onze-e-meia da manhã. Bestial, era mesmo o que me apetecia.

- Júnior, tem peixe para o almoço?
- Ô doutor, aqui só não tem é dinheiro.
- Mas que raio, porque é que me chamas doutor?
- Doutor, não fique embestado com o que vou perguntar, mas quantos reais tem na carteira?
- Hum… não sei, uns 100 – disse eu, desconfiado.
- Então desculpe, doutor, mas, aqui no Brasil, quem tem 100 reais para passear na carteira, é doutor.

Júnior é o arquétipo do brasileiro moderno que não vive nem nas favelas, nem nos condomínios das grandes cidades. Coincidentemente, é o mesmo tipo de brasileiro que existe no Brasil há uns 40 anos, porque eles não evoluíram lá muito. É feio, muito moreno de pele e todos os dias veste a mesma coisa: chinelo, calção de ganga coçado e tronco nú. Só veste a t-shirt quando tem que marcar mesa a alguém. «Júnior» nem deve ser o nome dele, deve chamar-se exactamente o mesmo que o pai, simplesmente chamam-lhe de «Júnior» para se diferenciar. Um dia, quando tiver um filho, vai dar-lhe um nome qualquer, mas toda a gente o há-de conhecer por «Júnior». Como qualquer brasileiro, faz tudo por dinheiro, mas foi honesto o suficiente para me recomendar um amigo quando eu lhe perguntei se queria ser o meu cicerone durante o tempo em que eu não teria que ir trabalhar. O amigo foi muito prestável: Júnior assobiou e o amigo apareceu passado cinco segundos [desconfio que estava escondido ali por perto à espera desse sinal]. Eis o amigo do Júnior à minha frente, a chamar-me doutor e a perguntar-me o que quero conhecer, se quero praia ou campo, cultura ou lazer, noite ou dia. Prestável. Como se chamava o amigo do Júnior? Júnior.

Mas tenho que reconhecer que foram os 100 reais mais bem gastos de toda a visita. Muito mais bem gastos que os 4 reais que gastei no acarajé, uma especialidade feita com massa-de-feijão, frita, tipo rissol, com recheio de uma massa de camarão e frango. A gordinha que mo vendeu disse que era uma especialidade da Bahia e perguntou-se se eu queria «quente». Eu respondi que sim, porque comer rissol frio parece-me indegesto. Mas «quente» queria dizer que o recheio teria, também, um pouco de vatapá, uma mistela feita com fubá e pimenta-malagueta, picante como o raio! Tossi catorze vezes e tentei dizer obrigado, o que não consegui porque as minhas cordas vocais são sensíveis – na verdade, não é uma membrana vocal porque essa ficou destruída no atentado à embaixada do Malawi na Tanzânia, hoje restam apenas dois fios de polyester presos por arames de aparelho dentário.

O Júnior amigo do Júnior foi impecável, explicou-me como podia alugar um carro, mostrou-me uma reserva natural onde as tartarugas se alimentam nas rochas e dão à luz no areal, ajudou-me a alugar um barco para ir longe da costa pisar um recife verdadeiro, comeu metade do meu almoço e ainda me perguntou se eu queria que ele contratasse algumas meninas para me fazerem companhia numa danceteria nessa noite. Obrigado, Júnior, mas por muito que a ideia pudesse parecer boa, eu tenho compromissos de estado. À tarde explicou-me como chegar a uma reserva de índios, que ficava a cinco minutos dali indo numa chata, atravessando o rio, ou então indo dar a volta pela «pista», sinónimo de única estrada asfaltada das redondezas, que me obrigaria a fazer mais 30 km. Olhando para o ar robusto e plenamente íntegro da balsa onde supostamente teria que pôr o carro em cima, achei mais prudente ir pela estrada. Bem me arrependi, porque demorei mais de 45 minutos e ainda me cruzei com uma patrulha da polícia, que me mandou parar.

- Boa tarde, posso ver o documento e a licença de condução?
- Huh… desculpe, mas lamentavelmente eu deixei os meus documentos no hotel. Nem parece meu. Mas não os quis levar para a praia para não os perder e acabei por não os trazer para cá e nem precisei deles para alugar o carro porque ficou tudo na conta do hotel…
...
- Oi?
- Deixei… os documentos… no hotel [dito com sotaque: «dei-xéi… us dócumeinto… nu hôtéu»]
- Ah, tá bom… - disse o polícia, enquanto eu imaginava já um devastador incidente diplomático que dali iria resultar.
- Seu colega aí do lado não tem documento?
- Ele tem.
- Então troca.

Assim? Tão fácil? Parece que sim. O Júnior explicou-me que o polícia, no Brasil, serve para prender vagabundo e não para chatear turista. O que ele não sabia é que o Júnior sabe guiar, mas também não tem carta. Pouco importa. Ele nem se deu ao trabalho de confirmar.

Então lá chegámos a um sítio onde os índios se vestem de índio, andam pela rua como índios, levam paus na mão como índios e pedem 1 real para tirar uma fotografia com eles como índios. Mas vá, o Júnior diz que são mesmo índios ou pelo menos descendentes das últimas famílias de verdadeiros índios que existe no Brasil. Explicou-me que aquela comunidade vive ali em regime aberto (isto é, a sociedade pode lá ir tomar contacto com eles), mas raramente sai dali. Têm tudo: as suas casas de palhota, as suas caldeiras para fazer comida, as suas lojas de recordações e flautas índias, as suas bancas de venda de CD de música tradicional índia, um centro de reflexão e uma escola para as crianças. Ali se aprende a falar o idioma do país, mas a pedagogia tem uma forte componente cultural, para que as crianças índias nunca percam a noção das suas raízes. Resolvi aproximar-me de um grupinho de crianças.

- Titio, dá caneta p’ra mim.
[«Titio»?? Querem ver que já cá tinha estado?? Ou alguma das minhas aventuras na Europa veio dar descendência aqui??]
- Er… eu não tenho canetas.
- Tem não?... E esse Samsung na sua mão? Tem mais?
[Samsu… hem?!… são índios, mas sabem o que é um telemóvel de terceira geração só de ver os botões?]
- Dá um real p’ra mim.
- Dá p’ra mim, titio.
- Dá mim.
- A mim.
- Compra um sumo p’ra mim.
- Titio, compra um pão p’ra mim.

[AAAAAAAAAAHHHHHH… tirem-me daqui!!!...]

Esta situação deu-me pena. Durante dois minutos e meio, pelo menos. Depois o Júnior explicou-me que eles são ensinados pelos pais a extorquir tudo o que puderem dos turistas e então a pena passou-me num instante.

É um sítio fantástico e tenho dúvidas que se possa fazer maior elogio da praia do que num lugar assim. Mas eu gosto mais da minha cama de rede nas Comores e do ar condicionado dentro da barraca. Sem ofensa.
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Tuesday, February 16, 2010

Chuva e frio que cancelam desfiles no carnaval de Torres Vedras só podem ser «bom tempo»


Esta manhã acordei com uma má notícia: estavam a dizer no transistor, numa rádio de onda-curta que oiço a partir da minha localização estrelar em Andrómeda III, que ia chover menos. Mas ia manter-se o frio. Ora isto é má notícia porque, pelos vistos, não é suficiente para cancelar todos os desfiles de carnaval do mundo, o que é extremamente aborrecido. Cavaco Silva tinha a secreta esperança que este era o ano em que o mau tempo ia convencer toda a gente da idiotice que é fazer um carnaval no Inverno. Mas fica a clara sensação de que ainda há gente que acha boa ideia fazer, nesta altura do ano lunar, uma festa da parvoíce, com gente mascarada de princesa, fada, bruxa, palhaço e, sobretudo, homens orgulhosamente vestidos de mulher. Fazem-se desfiles e gastam-se rios de dinheiro para fazer estas festinhas da saloíce e o povo gosta. Há, inclusivé, gente que tira férias, porque sabe que se embebeda na véspera da ante-véspera e só pára de vomitar 15 dias mais tarde.

Mas não está tudo perdido, diga-se. Muitas velas se acenderam, muitas orações foram feitas e algumas delas foram atendidas: no carnaval de Torres Vedras, o corso escolar foi cancelado. Pelo menos essa conquista foi feita e salvaram-se, segundo o que dizem os jornais, mais de oito mil constipações entre as crianças. A vasta equipa que realiza e leva até si este blog, composta por um ferro de engomar chinês, duas centrifugadoras Moulinex, um padre irlandês, um picador de gelo, cinco soldadinhos de chumbo e uma girafa do Aconcágua, mantém a secreta esperança de que tudo continue assim e, até, que se torne bastante pior. Esperamos que os céus se abram e que caia chuva, neve, gelo, um satélite russo desactivado, duas antenas parabólicas e um homem-bala do circo Chen. Pode ser que os melões passem de oito mil para os 200 mil papalvos que são esperados em Torres Vedras.

Entretanto recebemos a notícia de que também houve um cancelamento no carnaval de Loulé, mas podemos jurar a pés juntos (porque com os pés afastados não conta) que não tivemos nada a ver com isso e que não temos intenção de reivindicar esse atentado. O frio e a chuva cancelaram o desfile em Loulé, o que nos parece uma pena, tendo em conta que devia ter cancelado todo o carnaval em si. Não sabemos de quem é a culpa, mas suspeitamos que a responsabilidade do sucedido é da ETA e da sua célula activa em Boliqueime.

Agora vamo-nos deitar com o saco de água quente e cobertor eléctrico, porque está frio. Antes disso vamos beber um copinho de leite e escovar os dentes, mas isso só quando conseguirmos parar de rir.
o

Tuesday, February 02, 2010

O que aconteceu em Sanabria só foi trágico porque ainda sobraram alguns

«Tens que ir a Sanabria, porque aquilo é bestial e lindo e tem umas casas medievais e come-se lindamente e há uns enchidos bestiais», disseram-me em tempos. Agradeci a dica, mas tinha dúvidas que o meu patrão me pagasse a ida a um sítio desses só para ir despachar uma farinheira. E pagar do meu bolso para ir a um sítio qualquer qualificado como «território espanhol» estava fora de questão, a não ser que fosse Cuenca, com as suas bonitas casas dependuradas sobre o infinito, o areal imenso de Formentera ou o quase-marroquino ilhéu de Peregil. Vai daí que há uns dias, assim do nada, o meu patrão telefonou-me a perguntar onde eu andava. Como a resposta foi altamente convincente – «estou debaixo de um fogo cruzado no Afeganistão, chefe! Estou a correr perigo de vida! Vou ter que desligar!», ao que ele disse, «está bem, então despacha-te lá aí no El Corte Inglês que eu tenho um servicinho para ti» – mandou-me de enviado-especial para resolver um problema qualquer com as máquinas de uma fábrica de enchidos. Qual fábrica de enchidos? Uma fábrica de enchidos em Sanabria. Pimba, mesmo em cheio.

Sanabria fica ali, digamos, perto de coisa absolutamente nenhuma. Pergunta-se o caminho e as pessoas explicam: «é ali em direcção àquelas ventoinhas». As ventoinhas são os moinhos de vento gigantes de acumulação de energia eólica que ficam nas imediações de Sanabria. As imediações começam, digamos, em Bragança e acabam em Bilbau, porque o raio das ventoinhas estão espalhadas até perder de vista, o que complica um pouco a tarefa de saber perto de qual ventoinha fica o sítio de que ando à procura. Algures a meio do caminho dei comigo a passar por um lago bonito, pelo menos à primeira impressão, com umas embarcações de recreio na margem, umas árvores a emoldurar, o brilho do sol na água… vista simpática. Resolvi parar e entrar num tasco para beber um café.

- Hola!, sou o Don Quixote, vim à procura dos moinhos de vento. Esqueci-me foi do Sancho Pança, mas queria um café-solo.
(…)
(…)
[o casal de cidadãos castelhanos, muito badalhocos e já acima dos seus cinquentas, entreolha-se com ar assustado… acho que não perceberam a piada e pensam que vão ser assaltados]
(…)
(…)
- Esqueçam. Arranjem-me um cafezinho, sff.
- Café y leche?
- Não, café-solo. Curtinho.
- De onde eres usted?
- Do Uzbequistão. Mas estou cá em trabalho. Ando à procura de Sanabria.
- Ah, solo quedan unos quilómetros. Sigue los molinos de viento.
- Já sei, já sei… como se chama este sítio aqui?
- Ribadelago… es decir, [já traduzido, porque não estou com paciência para o castelhano] a aldeia original ficava ali mais acima, mas ficou debaixo de água e desapareceu quase na totalidade. O senhor nunca ouviu falar da tragédia de Ribadelago?

De facto, eu não tinha ouvido falar em tal coisa. A Espanha em si parece-me uma tragédia do primeiro ao último acto, não tinha ideia que havia uma tragédia específica de Castela & Leão. Então parece que, lá para o meio do século passado, o Franco – um rapaz justo e pluralista que, ao longo dos seus anos no poder, nos fez o favor de privar da companhia de vários espanhóis – mandou construir uma barragem por aquelas bandas, chamada Vega de Tera. As paredes da represa tinham mais de 30 metros de altura, uma coisa imponente que mereceu várias visitas após a inauguração. Umas dezassete pessoas, consta. Das quais 5 eram fiscais da companhia de electricidade. Ora a barragem foi, ao que parece, construída com paus-de-fósforo e pastilha-elástica, porque ao fim de três anos sucumbiu às chuvas torrenciais. O que não deixa de ser estranho, tendo em conta que as barragens servem para… hum… segurar (e usar) a força das águas. As paredes abriram uma racha de 70 metros na horizontal e foi o salve-se quem puder. E, pelo que dizia no quadro que o café tinha pendurado na parede, só puderam salvar-se uns 25 espanhóis. Franco andava a ficar desleixado. De qualquer maneira, nada disto explica como é que uma barragem cedeu daquela maneira.

- Mas nesses dias estava muito frio. Uns 18 negativos. E havia água a mais na albufeira da barragem – explicou o senhor do avental com ar de que nunca viu o tanque da roupa na vida.
- Está bem, joder!, mas quanto muito a água transbordava por cima, não rebentava com as paredes da barragem.
- Impossível. Era água a mais. O desfiladeiro que vai daqui à aldeia antiga ficou inundado em menos de quinze minutos. Nem as árvores sobraram. Foi de tal maneira que o lago da Sanabria, nascido nesse dia, ainda está aí à frente dos seus olhos. Consta que alguns corpos ainda estão lá no fundo.
- Macabro, chico. Podias ter evitado contar-me esse bocadinho.
- Mais macabro foi passar por isso tudo...
[tinha negligenciado o facto deste distinto senhor ter ar de quem é contemporâneo da tragédia, que disse ter sido em 1959]
- Imagino a dor das pessoas…
- Foi muy difícil…
- Que idade tinhas?
- Nueve.
- Caramba… e lembras-te bem?
- Não. Eu nem sequer sou daqui. Nasci em Cádiz.
[odeio espanhóis…]

Isso da barragem não ter resistido ao frio do Inverno parece-me má desculpa. É que tem estado um frio dos diabos! Isto, claro, se houver diabos na Sibéria, porque toda a gente diz que isto é uma vaga de frio siberiano. Pois seja lá de onde ele vem e para onde quer que vá, espero que se despache porque ontem dormi dentro do frigorífico, onde estava menos frio do que cá fora. E apesar deste frio de rachar, que eu saiba não andam por aí barragens a rachar ao meio.

No banco, em frente ao lago, estava um velhote castelhano. Sossegado, olhos postos não se percebe bem em quê (não dava mesmo a ideia de que a paisagem se fosse mexer nos próximos 200 anos), pacato, a pedir conversa de um parvo como eu. E eu, parvo, fui meter conversa.

- Hola. Bonito este lago.
- É…
- Vem de um rio?
- Sim. Do rio Tera. Mas veio aqui parar depois.
- Como assim?
- Foi o imperador Turpin, um bispo maléfico que queria a cidade à força.
- Mas porquê? Quem é esse? O que é que ele fez?
- Ele queria tomar o poder da cidade por causa dos palácios e do castelo e porque a igreja era uma das mais bonitas da altura. E porque andava de amores com uma gaiata de Zamora.
- Mas e então? Chegou e fez o quê?
- Organizou um exército e parou à porta da muralha da povoação e gritou até que lhe entregassem a cidade. Então invocou o nome de Deus e o chão abriu duas enormes brechas que inundaram a cidade.
- E isso foi quando?
- Na Idade Média.
[dois espanhóis, duas histórias diferentes; posso odiá-los à vontade ou não?]

Com esta converseta toda perdi ainda mais tempo para encontrar a fábrica das chouriças. Mas lá dei com aquilo, ficava sensivelmente a meio-caminho de lado nenhum. Fui recebido por uma senhora baixinha e gordinha, luzidia como uma porca e toda vestida de branco. Toda, quer dizer… toda menos os braços sardentos, totalmente descobertos. Eu de sobretudo e a castelhanita de manga curta. Estendeu-me o sorriso e um aperto de mão tão gorduroso que estive capaz de lhe pedir um frasquinho para armazenar a colheita e fritar uns rissóis quando chegasse a casa. Perguntei-lhe pela máquina e ela levou-me para o sítio onde se guardam as chouriças, as farinheiras, os paios, as morcelas de arroz e as linguiças. De caminho perguntei-lhe se sabia a história da tragédia do lago de Sanabria, ela acenou com os caracóis encardidos que sim.

- Ficou tudo inundado, não foi? – perguntei eu como se não soubesse de grande coisa.
- Pois foi…
- Mas porque foi?
- Em tempos passou por aqui um mendigo a pedir esmola. Estava frio, ele queria aquecer-se e estava quase morto de fome. Ninguém o acudia.
- Mau… o que tem isso a ver?
- Tem que umas senhoras que estavam a cozer pão pegaram nele, levaram-no para o pé do forno para ele se aquecer, e pediram que esperasse porque lhe dariam qualquer coisa para ele se alimentar. Então o pão que saiu de dentro do forno era tão grande e tão saboroso como nunca tinham sido capazes de cozer. E o mendigo era afinal Jesus Cristo, que se ergueu e disse que ia castigar aquele povo que não o atendeu, inundando as suas casas…
- (ai… estou com medo de saber o resto)
- …então ele cravou o seu cajado no chão e gritou para que as paredes da represa ruíssem. E a povoação ficou debaixo de água.
- E quando aconteceu isso?
- Uns anos depois de Cristo morrer.

Não creio que haja um motivo muito racional para eu odiar espanhóis. Mas pelo que sei hoje, não precisa haver. Odeio-os e pronto.


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Friday, January 08, 2010

Carnaval de Torres Vedras 2010: nomeado para o prémio «carnaval mais estúpido do mundo»

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É já um clássico e não podia faltar: aproxima-se o carnaval de Torres Vedras 2010, o momento alto do calendário gregoriano. Momento alto porque, nestes dias, vai tudo ao gregório.

Com ele, vem também um chorrilho de barbaridades, a maior parte das quais publicadas aqui mesmo, nestas linhas. Não apenas aquelas que eu próprio escrevo, mas também aquelas das pessoas que vêm aqui, aqui e aqui, comentar, de forma irada, os disparates que nestas linhas são escritos.

O carnaval de Torres Vedras de 2010 está nomeado para a categoria «carnaval mais estúpido do mundo» e tem todas as hipóteses de vencer. Vai lutar taco-a-taco com o carnaval de Veneza e estes são os dois mais fortes candidatos ao prémio, curiosamente pelos mesmos motivos: o de Veneza leva a dianteira porque, apesar das cheias e das chuvas torrenciais em Itália, vai mesmo para a frente; e o de Torres Vedras segue-o de perto na pontuação porque, apesar das cheias e das chuvas torrenciais na região Oeste de Portugal, vai mesmo para a frente. O carnaval de Torres Vedras tem um trunfo de última hora que pode influenciar largamente a votação do público, que é o facto da sua benemérita organização ter um barracão-voador que se despenhou apenas depois de alguns minutos ao serviço da companhia. Tinha sido inspeccionado no mês passado e não havia nada de errado com o trem de aterragem, de modo que será preciso encontrar as caixas negras para apurar as razões do desastre aéreo.

O tema do carnaval de Torres Vedras de 2010 é «invasões». Ainda não se percebeu de quê, mas eu suspeito que vai haver uma invasão de gente parva em Torres Vedras. Tenho o pressentimento que é capaz de ser por isso.

Este será o último carnaval de Torres Vedras a realizar, depois disso o carnaval de Torres Vedras acaba. Isto porque a organização já anunciou que o tema de 2011 é «Selva», de maneira que deixa de ser um carnaval como sátira social e passa a ser a vida real de Torres Vedras, que é uma selva em qualquer outro dia do calendário e, em especial, no carnaval.

Aguardam-se, portanto, com ansiedade redobrada as últimas edições das grandes tradições do carnaval torreense: o corso diurno, o corso trapalhão, o concurso nacional de homens vestidos de mulheres, a tentativa de entrada no Guiness de maior quantidade de vómito acumulado na mesma cidade, o desfile de brasileiras e brasileiros que nunca podem participar no carnaval de Torres Vedras mas participam sempre, os carros alegóricos, a música em altos berros e, no fundo, a estupidez generalizada.

Bem hajam a todos e desejo a todos que o menos mau que vos possa acontecer nesta edição do carnaval de Torres Vedras seja um surto de Gripe A.
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Friday, December 25, 2009

Armazém do Carnaval de Torres Vedras destruído depois de falhar a pista de aterragem


Passava pouco das 07h00, hora de Torres Vedras continental, quando o armazém da organização do carnaval de Torres Vedras se ergueu nos céus. Porém, poucos instantes após descolar, o aparelho pré-fabricado, que tinha sido revisto pela última vez nas oficinas de manutenção precisamente no dia em que foi montado, encontrou um bando de pássaros, que provocou a avaria dos dois motores.

Iniciando o procedimento de emergência, o barracão fez meia-volta e, no meio do temporal, tentou aterrar, mas os ventos estavam demasiado fortes e aterrou fora da pista de aterragem. Felizmente não há vítimas a lamentar, a não ser as vítimas que pertencem à organização do carnaval de Torres Vedras e agora vão ter que voltar a arrumar aquilo tudo no sítio. [Sim, porque os desgraçados dos desalojados não têm quem lhes dê casa, mas esta gente vai ter o carnavalinho deles impecável em Fevereiro, vão ver].

Sempre quero ver se têm sentido de humor suficiente para converterem o que se passou numa brincadeira durante o carnaval de 2010. Ou eventualmente fazerem um barracão alegórico...

o

Sunday, December 06, 2009

LA is my lady... ta ta ta ta ta...

Tentei em vão localizar o Sinatra nos auscultadores. Faz tempo que não presto as minhas homenagens ao dirty old Frank. Há sempre alguma coisa de imortal na obra dos artistas que já se foram, uma súbita necessidade de zelar por que não se preca o contacto, de os reencontrar na perpétua obra que deixaram. Passa-se mais ou menos o mesmo com o Michael Jackson – agora que se foi, dá vontade de voltar a ouvir as suas músicas. Felizmente, é uma vontade que passa depressa. Basta ouvir o ‘Bad’ e pronto, assunto resolvido. Passa logo a vontade. Curiosamente, nunca tive vontade de reescutar a Amália e faz tempo que já se foi. Há sempre alguém disposto a lembrá-la por mim, numa rádio, num projecto musical fusionisto-sofisticado, num filme, num musical do La Féria, portanto não me parece que ela dê pela minha falta.

Voltando ao Sinatra. Não o encontrei na música de bordo, mas reencontrei-o mentalmente o suficiente para me acompanhar na belíssima descida do avião sobre a Greater Los Angeles. «LA is my lady… ta ta ta ta ta…», canta o Frank dentro do meu cérebro artificial, embalado pela multidão em delírio no Rose Bowl e pelo malte fermentado dos quinze whiskeys que despachou antes de tentar cantar aquela melodia ao vivo. [Perto do final da carreira, Sinatra estava um farrapo. A voz grave e pungente já só era meramente suficiente para falar, e contando que fosse até à hora do almoço. Para cantar, perfeita. Se fosse em playback] Felizmente estava uma tarde maravilhosa de um sol dourado reflectido no alvo das letrinhas mais famosas das colinas de Hollywood. O 747 sobrevooa a imponente Los Angeles como se fosse um pardal ligeiro, o que não deixa de ser surpreendente tendo em conta que estamos a falar do pássaro mais monstruoso e improvavelmente aerodinâmico que anda pelos céus normalmente. E a vista percorre Los Angeles de um lado ao outro, e mais um bocado de Los Angeles a seguir. E depois disso ainda há mais Los Angeles. Quase sem prédios altos. Quase exclusivamente preenchida por propriedades que crescem na horizontal e não na vertical. Sem muros. Com jardins. Com piscinas. Bonito.

Na Greater Los Angeles, uma zona metropolitana umas 200 mil vezes maior que o Lichtenstein e quase 300 milhões de vezes maior que o Colombo [a sério, dei-me ao trabalho de confirmar], vivem treze milhões de pessoas. Mais do que a população da Bélgica. Quase tantas pessoas quantas as que visitaram a Disneyland Paris no ano passado. Quase tantos seres humanos quantos todos os benfiquistas do mundo inteiro. Metade desses treze milhões de Los Angelinos [ou será Los Angelenses? Ou Los Angélicos? O Angélico Vieira que não leia isto, senão ainda lhe dou ideias para uma boys/gays-band…] não são cidadãos americanos. Há uma enorme comunidade oriental, com um peso decisivo de coreanos [para terem uma ideia, a Koreatown, que fica mesmo na zona baixa da cidade, ocupa uns 30 quarteirões], a conviver de forma aparentemente pacífica com mexicanos, peruanos, chilenos, porto-riquenhos, árabes, brasileiros, israelitas, paquistaneses, turcos e portugueses [há sempre um em todo o lado, não há? A caminho de Long Beach até há uma «curva dos portugueses» na estrada de Palos Verdes, que identifica a maior reserva natural da península de… hum… Palos Verdes]. Os motoristas de táxi são coreanos. Não falam uma palavra de inglês, mas percebem tudo. O dispatcher – um tipo fardado que chama os táxis e distribui as pessoas pelos carros à porta do aeroporto – é peruano e fala inglês quase tão bem como a minha mãe. [O domínio do idioma que a minha mãe possui alterna entre o «yes», o «ou-quei» e o «pénk-iú»]. O chefe do dispatcher é filho de pais jamaicanos. É o único que sabe falar inglês, apesar do bagaço lhe toldar a pronúncia.

Fico com o pressentimento que o LAX é o mais caótico pedaço de civilização que existe no mundo inteiro, com excepção de Atenas e Istambul. E da Fonte da telha. É um aeroporto enorme, confuso, em obras, desorganizado, a precisar de mais obras, labiríntico e a precisar de obras por causa das obras que já decorrem. São 45 minutos para conseguir passar pelo controlo de passaporte e outros 40 para conseguir descobrir a mala de viagem, que entretanto anda às voltas num dos tapetes esmagada por outras 7621 malas que chegaram de outros 43 voos. Depois mais um quarto de hora para passar pela alfândega. Finalmente entro na torrente dos passageiros que acabaram de chegar e se dirigem para a zona onde os familiares os esperam, que é quase tão grande como… a sala de espera de um consultório. Centenas e centenas de pessoas amontoam-se à espera de ver a cara do cidadão por que esperam. E eu, naquela confusão toda, era suposto ter encontrado alguém com um cartaz com o meu nome. Não encontrei, obviamente. Tive que ir ao balcão de informações, de onde fui sendo encaminhado para umas quinze pessoas diferentes. Finalmente fui dar com um senhor fardado com uma camisa branca com um grande «LAX» azul bordado no peito. Tinha um crachá pendurado numa fita dos… Los Angeles Lakers [eu devia ter desconfiado…]

- Tens a certeza que estava aqui alguém com um cartaz com o teu nome?
- Não tenho, mas foi o que me foi garantido pela senhora que tratou desta viagem.
[Se eu tivesse a certeza, não te estaria a perguntar por ele, pois não?]
- Como é que te chamas mesmo?... Edmund… OK… eu vou pedir que procurem pelo gajo do cartaz com o teu nome.
[Foi falar com outras pessoas. Estão com ar de que viram o tipo que eu procuro]

- Parece que já sabem onde ele está. Espera mais uns minutos.
- Eu espero…
[Praí uns dois. Ao terceiro minuto apanho um táxi porque estou a ficar sem paciência para isto]
- Vens de onde?
- Neste momento estou em trânsito, vim de Portugal.
[Mau… vem daí coisa]
- Epá, Portugal. As pessoas de Portugal têm bom coração!
- Têm sim.
[Como se tu soubesses onde fica Portugal]
- Tu também tens cara de ter bom coração…
[pronto, ele vai pedir-me dinheiro]
- …e por isso vou pedir-te que faças uma doação, qualquer quantia, qualquer moeda, para este centro de crianças orfãs. Eu sou representante das instituições de apoio e como vês estou identificado…
[…com um crachá ilegível, mas estás…]
- …e eu passo-te uma declaração para ser dedutível nos impostos.
[Estou mesmo a ver o departamento fiscal do Qatar, que é onde eu vivo, a aceitar esse papelito verde que me estás a dar para a mão…]
- Eu só tenho uma moeda de dois euros e…
[interrompendo-me]
- …dá-me antes vinte!



[ainda incrédulo]
- Ouve, vou dar-te estes dois euros e tu fazes o que quiseres com eles, contando que me encontres o gajo que me vinha buscar de limousine, OK?
- É que vou já buscá-lo! Toma, eu escrevi aqui que me tinhas dado 35 dólares. Por teres um bom coração.
[Faz todo o sentido, do ponto de vista fiscal. E do ponto de vista da caridade, também]

Não fiquei para ver se ele, de facto, tinha descoberto alguém que soubesse o meu nome. Até porque tenho a certeza que ele nem sequer voltou. Cinco segundos depois de eu ter começado a caminhar em direcção ao táxi ouviu-se um anúncio nos altifalantes: «o aeroporto de Los Angeles não apoia nem incentiva qualquer peditório feito por cidadãos. Não se sinta obrigado a contribuir». Obrigado. Obrigado por me dizerem que eu não sou obrigado.

Adiante. Não interessa. Estou hospedado em Beverly Hills e a entrada da Doheny Drive, com as palmeiras iguais às que se vêem nos filmes, é suficiente para me fazer sentir que seria capaz de viver num sítio assim. Se fosse rico. Ou charlatão. Consta que quem vive nas bonitas casas de Beverly Hills e West Hollywood não tem dinheiro para as pagar, mas os processos de fraudes e créditos por pagar são simplesmente demasiados. E demasiado morosos, também. E nada lucrativos, porque a especulação imobiliária dos últimos anos fez o preço das propriedades subir de tal maneira que agora não interessa a nenhuma instituição penhorar residências que depois ninguém vai conseguir comprar ao preço pedido. Mas é lindo. Diria quase perfeito. Longas e largas avenidas, algumas zonas perfeitas para passear a pé. Esqueçam o passeio das estrelas – elas nem sequer andam por ali. É mais fácil vê-las a correr de iPod nos ouvidos em Santa Monica ou em Malibu, ou então a jantar em Sunset Strip. Se alguém pensa vir a Los Angeles atrás das estrelas de cinema, está a cair num logro dos grandes. Elas raramente se mostram e raramente frequentam os mesmos sítios por hábito. Variam os locais e os horários, para fintarem os paparazzi. O único sítio onde é quase certo encontrá-las é em Rodeo Drive, onde estão as lojas mais caras da Califórnia. E mesmo aí, é bom que seja numa das lojas que não tem entrada pela porta dos fundos ou que não seja uma das que fecha as portas cada vez que aparece a Julia Roberts. De resto, é quase impossível. É tudo tão grande e tão extenso que é mais fácil encontrar uma amostra de sangue não-contaminada num pelotão de ciclistas. É incrível, nunca vi nada assim. Dentro da Greater Los Angeles há a cidade de Los Angeles, a cidade de Beverly Hills, a cidade de West Hollywood, Malibu, Palm Beach, Brentwood, South Beach, Long Beach, Century City, Santa Monica, Harbour City… uf…

A mais bonita é, indiscutivelmente, a de Santa Monica. Para lá chegar é preciso fazer a Santa Monica Boulevard que a Sheryl Crown canta na famosa canção. E já agora, é bom que não sigamos o conselho dela para a pecorrer «until the sun comes up over Santa Monica Boulevard», porque é mais bonito fazê-la de dia. Ainda que se comece numa ponta [em Sunset Boulevard, o sítio das prostitutas e dos travestis], às três da tarde, e se termine na outra, 15 km mais tarde e já de noite [o sol, por estas bandas, põe-se depressa. Demora uns três minutos. Vá, talvez quatro]. O trânsito é infernal, como seria de se esperar na segunda maior cidade da América, mas incrivelmente organizado e civilizado. Os franceses, amantes incondicionais de rotundas, devem ter um ataque apoplético cada vez que têm que fazer um cruzamento entre avenidas da Cidade dos Anjos. Está instituído que os carros de ambos os sentidos avançam na direcção uns dos outros e, no eixo da via, cada um vai para seu lado, evitando-se mutuamente e evitando o trânsito que avança nas restantes faixas. Sem colisões. Perfeito. E mesmo que um semáforo esteja vermelho para quem quer seguir em frente, quem quer virar à direita não tem que o respeitar, contando que não esteja nenhum outro carro a cruzar a avenida.

But enough of this traffic crap. Vamos ao que interessa: gajas. Como são as gajas de Los Angeles? Não faço ideia. Passei o tempo enfiado dentro de carros ou em aborrecidos encontros formais com pessoas de gabinetes de senadores, oficiais de justiça, advogados, juristas, jornalistas, representantes do turismo, fabricantes de tequilha, seguranças e adidos culturais. [se calhar não eram fabricantes de tequilha, mas havia dois gordinhos mexicanos naturalizados que pareciam mesmo saídos de um filme do Cantinflas] As únicas «gajas» que vi eram as respeitáveis secretárias dos administradores, cada qual com idade para serem minhas avós [eu sou novinho, ainda nem fiz 14 anos, em idade saturniana], portanto compreendem se eu subitamente sentir a tentação de não proceder a comentários sobre elas. A não ser para dizer que eram gordas.

Pois se há alguma coisa comum aos americanos da Califórnia, sejam eles coreanos ou mexicanos, é a obesidade. Na verdade, isto é comum aos americanos em geral. Em média, um yankee ingere 3600 calorias por dia. Um número simpático, tendo em conta que um cidadão adulto pode viver nas calmas com 1500 calorias por dia e o normal é não superar as 2100. Por aqui começa a fazer sentido que os americanos tenham carros grandes e vivam em casas gigantescas, porque têm que fazer caber as suas enormes barrigas em qualquer lado. E também faz algum sentido, bem vistas as coisas, que não andem a pé. Para ir a qualquer lado de Los Angeles é preciso ir de carro, porque é tudo longe de tudo. Por exemplo, eu quis ir ver as letrinhas de Hollywood de perto.

- Como é que faço para ir lá acima às colinas ao pé do Hollywood sign?
- Simples, sir. O Four Seasons tem o prazer de o convidar a ir numa das nossas limousines.
[O concierge do hotel é assim uma espécie de Jeff Bridges impecavelmente vestido de sobretudo e gravata e cartola. Mas não é actor. É só o frontman do hotel. Embora eu ache que ele gostava de ser actor]
- Mas eu queria ir a pé.
- Impossível, sir. São umas quatro milhas.
- Como assim, impossível? Eu gosto de andar a pé.
- Mas é muito longe.
- Está bem, mas e então se for apenas perto do Hollywood sign?
- Ainda serão umas três milhas.
- E não dá para ir a pé?
- Talvez. Mas terá que subir a colina a pé.
- Tudo bem, mas vale a pena? A vista é bonita?
- Nem por isso, sir. Inclusivamente nem se vê nada a esta hora da noite [eram cinco da tarde] porque as luzes estão desligadas.

Estou a ficar farto deste lugar. Vou-me embora. Espera-me uma via-sacra em réplica para passar pelo LAX outra vez. Mas desta vez, depois dos oito controles de entrada, três máquinas de raio-x, uma revista em que até me quiseram ver a cor das cuecas [o que foi extraordinário, tendo em conta que eu não uso cuecas] e mais três quilómetros e meio a andar a pé, havia ainda mais um tormento: um alarme na sala de embarque que tocou 43 minutos seguidos sem que alguém se tivesse preocupado em desligá-lo. Finalmente alguém o desligou. Ouviram-se palmas. Sinto-me aliviado por sair de um sítio assim. Mas a verdade é que estava capaz de viver por cá.
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[breve vídeo de 20 segundos do inferno do alarme no LAX. Para verem que não estou a inventar]


Thursday, October 15, 2009

EXCLUSIVO: Maitê Proença assume identidade portuguesa e escreve num blog de maledicência

Não percebo. Juro que não percebo. Ando há anos a dizer mal dos portugueses e nunca ninguém se insurgiu contra mim. De repente aparece a Maitê Proença, actriz brasileira popularizada por ter uma das vozes/dicção mais irritantes da comunidade de Língua Portuguesa e por ter a genitália mais frequentemente retratada no cinema brasileiro dos anos 80, e cai o escândalo. E toda a gente exige um pedido de desculpas. A mim nunca ninguém exigiu um pedido de desculpas. A quem é que eu tenho que exibir a genitália para me exigirem um pedido de desculpa?

Irritado, enviei um e-mail à Maitê Proença a dizer-lhe umas verdades. A dizer-lhe que eu sei que ela é portuguesa. Que eu sei quem ela é. E que me peça desculpa pelo facto de a mim ninguém me exigir um pedido de desculpa. Isto de dizer mal dos portugueses exige dedicação, esforço e um certo nível de profissionalização. Não se admite que agora chegue uma actriz, conhecida dos dois lados do oceano, e assim sem mais nem menos me tire o emprego. Já não chegavam os brasileiros que servem nos restaurantes e os brasileiros que entregam pizzas em casa, mais os brasileiros que atendem os telefones nos call-centers, os brasileiros que fazem ponto no Conde Redondo, os brasileiros que assaltam bancos, os brasileiros que montam fios da TV Cabo, os brasileiros que fazem maus anúncios de televisão para o Pingo Doce e os brasileiros que jogam no Paços de Ferreira, agora ainda temos que levar com os brasileiros que falam mal dos portugueses. Onde é que já se viu isto?? Qualquer dia, temos brasileiros a contar anedotas sobre portugueses. Isso seria um ultraje.

A Maitêzinha já me respondeu ao e-mail e às questões que eu lhe enumerei. Dez questões firmes. Uma dezena de perguntas claramente a pôr o dedo na ferida e a exigir explicações. Aqui transcrevo as respostas:

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On Wednesday, 14th October, Edmund wrote:
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Reply by Maite_proenca@uol.com.br

Caro Edmund, em resposta ao seu ímeio:

1. Eu nunca quis tirar sarro da cara dos portuga. Muito menos quis tirar de você essa atividade profissional.

2. Mil perdões, mas não tem razão de ficar embestado com isto. Gozar com portugueses não é de agora não. Já vem de longe. Há pelo menos 50 anos que toda a gente faz isso no Brasil. E já venho fazendo isso vai p'ra muito tempo. Quem sabe uns 60 anos.

3. Como você descobriu que eu sou portuguesa?? É verdade, sou sim. Em 1999 eu fiz plástica para disfarçar ruga e agora ela quebrou toda. Tou parecendo velha e portuguesa, não quero que ninguém saiba, por favor mantenha sigilo.

4. Não sei quem é esse tal de Santana Lopes que você tá falando.


5. Não creio que seja possível a gente almoçar essa semana, tou com trabalho.


6. Contracenar com Diogo Morgado foi super bacana, ele é totalmente fofinho e bom colega e excelente ator. A não ser que eu esteja confundida e você não esteja falando daquele cara espanhol e o Diogo seja aquele ator português. Nesse caso ele é um calhorda, mau carácter e um pouquinho boiolão.

7. Tou pensando voltar a posar para a Playboy sim, a grana faz falta para a plástica que vou ter que fazer para disfarçar esse rosto com que fiquei.

8. Quem é esse tal de Miguéu? Não lembro de Miguel Sousa Tavares não. Uma vez teve aqui um cara português muito inxirido que andou bisbilhotando na biblioteca, copiando coisas de livros. Ouvi dizer que ele escreveu livro em Portugal e tá sendo o maió sucesso. Dá p'ra entender. Portuga é besta, sô.


9. Olha, jantar também tá difícil, cê sabe que eu não janto. A minha refeição é a base de suplemento de vitamina, cálcio para reforçar o osso, glúton de larva de pulga e água de coco.

10. Quanto ao carnaval, olha, eu vou ficar por aqui mesmo no Brasil. Tive convite para ir no carnaval de Torres Vedras, mas nem sei em que parte da Espanha isso fica. Eles mostraram fotos p'ra mim, aquele lugar parece Baguedá depois de Sadã ter sido enforcado. Vou ficar por aqui mesmo.

Obrigado e maior beijinho, você é o maior gato Edmund

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Não apreciei as respostas e estou indignado. Assim sendo, vou revelar a identidade secreta dela. Maitê Proença é... Manuela Ferreira Leite. Fugiu para o Brasil assim que soube que o Santana Lopes queria ir a novo conselho nacional do PSD para se recandidatar à liderança do partido.

Maitê Proença, melhor dizendo, Manuela Proença Maitê da Silva Gallo Ferreira Leite, prometeu, no seu exílio em Aracajú, no estado do Sergipe, deixar de gozar com todos os portugueses, passando a gozar apenas com os portugueses que votarem em Pedro Santana Lopes. Ou em Hernâni Carvalho.

Prometeu, igualmente, passear todos os dias de manhã, junto à água do mar, em tanguinha e bikini. Também prometeu nunca mais fazer bobó. De camarão. Parece que uma vez comeu camarão estragado e agora quer evitar a gastroentrite, que é coisa para ser desagradável ao nível da tripa. Prometeu ainda enviar-me um par de havaianas, mas até agora ainda não recebi nada e estou a ficar preocupado. Prometeu voltar a Portugal unicamente no dia em que Mário Soares disser uma frase que faça nexo do princípio ao fim e, enquanto espera, vai enviar uma carta a António Lobo Antunes disponibilizando-se para ser a sua próxima namorada em terras de Vera Cruz. Que, como se sabe, é a prima brasileira do Carlos Cruz.


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Monday, October 12, 2009

Breves notas sem critério especial nem rigor por aí além sobre as eleições autárquicas

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Cancelaram a reunião dos piscopatas anónimos de domingo passado, de maneiras que dei comigo sozinho na barraca, em frente a uma televisão só com três canais. E os três a dar o mesmo: a cobertura das eleições autárquicas em Portugal.

Notas a reter:

- alguém devia ensinar português aos tipos que escrevem os oráculos. Em alternativa, podia contratar-se técnicos de grafismo multimédia que de facto tivessem estudado português na escola. Mesmo que tivessem chumbado. «Macário Correia já chegou sede de campanha» e «Portas aguarda para comentar escrútinio» eram erros difíceis de evitar, mas «Rio conquista maioria no Poto» e «Passos Coelho releito para Assembleia Municipal» talvez fossem evitados por qualquer ser humano com mais de sete anos de idade. Mesmo nascido no Uzbequistão.

- Valentim Loureiro voltou a ganhar em Gondomar e estou com um pressentimento que Tony Carreira será seu mandatário para toda e qualquer eleição futura, incluindo para os órgãos sociais do Boavista, do FC Gondomar, unidos do Chinquilho da Guiné, Federação dos Negociantes de Diamantes e Clube de Tuning de Fânzeres. Ficou provado, também, que Valentim Loureiro dispensa o uso de um microfone para discursar à multidão. Os seus gritos de ontem ouviram-se em Reguengos de Monsaraz.

- Santana Lopes não estava a preparar-se para ser presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Assim que percebeu que não ia vencer (deviam ser umas cinco da tarde e o gin já tinha acabado, só sobravam dois rissóis do dia anterior e um folhado de salsicha roído pelo cão), começou a preparar-se para a Meia Maratona de Lisboa. Fez o caminho entre a sede de campanha e o escritório de advogados umas trinta vezes e está em belíssima forma. Alguém devia explicar-lhe, porém, que nas maratonas não há obstáculos. É que ele insistia em fazer o caminho por detrás dos carros de exteriores e saltando vigorosamente as rampas dos camiões, com uma desenvoltura digna do Rochemback antes da picanha do pequeno-almoço. Nunca vi ser humano tão obcecado pela própria imagem. Nem o Narciso - o grego, não aquele de Gaia - gostava tanto de si próprio. O Santana foi o único candidato a assistir à revelação das projecções num sítio onde pudesse ser filmado. Provavelmente era o único a acreditar que podia ganhar. Mas devia ter sido um dos vários em que ninguém devia ter votado.

- Hernâni Carvalho ia ganhando. Decididamente, há demasiada gente em Odivelas a precisar de acompanhamento psiquiátrico.

- Elisa Ferreira ganhou o prémio de sorriso mais falsificado da noite. Deve ter treinado aquela expressão facial vezes sem conta e sempre em frente ao Pedro Abrunhosa, para se ver ao espelho nos óculos dele (é verdade, vou desmistificar um mistério: o Abrunhosa usa óculos escuros porque é estrábico. Daqueles assim mesmo BUÉ estrábico. Tipo as mamas da Ana Malhoa, uma para cada lado. OK? Não tem nada a ver com estratégias de marketing. Achei que deviam saber, só isso. Também nunca percebi o interesse do assunto. O Zé Cid usa óculos escuros há decénios e nunca ninguém quis saber porquê). Elisa Ferreira estava tão contente, mas tão contente, tão radiante, que logo a seguir àquele sorriso encantado pela forma como decorreram as eleições a seu (des)favor, anunciou que vai para Bruxelas. Até a Fátima Felgueiras se esforçou para fazer um sorriso mais honesto. O típico sorriso de quem acabou de se urinar nas calças em público e toda a gente notou.

- Em Torres Vedras ganhou Soares Miguel. Ganhou a si próprio porque o presidente já era ele. Ganhou com inteira justiça e mereceu todo e cada voto que lhe concederam. Do programa eleitoral do candidato socialista e presidente da autarquia constava apenas uma breve nota sobre a «criação do Centro das Artes do Carnaval». Extraordinário, para um município onde o carnaval tem um peso tão grande, como todos os defensores do carnaval gostam de frisar. O que representa em termos económicos, turísticos e sociais. Uma importância incrível. Uma relevância tão grande, tão histórica, tão cultural, que mereceu duas linhas no programa eleitoral do candidato mais forte e, mesmo assim, sobre um tema obsoleto e ridículo. Felizmente, há pessoas inteligentes a viver neste país dos portugueses. Duas ou três. Uma delas deu-se ao trabalho de escrever isto num blog. Não sei quem é, nem o que faz, nem para quem trabalha, nem sequer se é de Torres Vedras. Mas desço do meu suporte básico de vida e faço-lhe uma vénia, considerando-me, a partir de hoje, seu admirador.

- Alguém devia arranjar uma cadeira mais larga para Pacheco Pereira. O conhecido comentador social-democrata é daqueles cidadãos obesos que, quando exulta a sua soberba e quase cai da cadeira, quase cai para os dois lados.

- Seguindo a mesma linha de raciocínio (inventada por um colega meu que é copeiro num bar de strip, porque eu não sei raciocinar), alguém devia arranjar uma almofada dupla para a cadeira do Marques Mendes. Mesmo estando numa cadeira extensível em altura, puxada no máximo para cima, continua a parecer pequeno.

- Ninguém se concentra no que o Pacheco Pereira está a tentar dizer depois de ver as pernas da Clara de Sousa.

- Ninguém leva a sério um pivot de uma noite eleitoral se ele tiver a barba de adolescente garanhão do Rodrigo Guedes de Carvalho. Seria o mesmo que o Mário Crespo de rabo-de-cavalo e t-shirt cava justinha ao peito ou a Ana Lourenço de tranças e traje colegial. Se bem que me agrada mais a segunda ideia do que a primeira.

- A ideia da RTP tentar passar a imagem ultra-tecnológica dos pivots a comandar a emissão a partir de uns mega touch-screens não resultou lá muito bem. Toda a gente percebeu que havia descoordenação entre o toque no ecrã e o gajo que estava na régie a comandar as operações.

- Ver o Pedro Pinto como coordenador de uma emissão especial sobre eleições é mais ou menos o mesmo que ver o Rui Unas a coordernar o Prós e Contras sobre o referendo ao aborto. Aquilo não cola. E como a TVI voltou a levar uma grande tareia nas audiências, a próxima noite eleitoral vai ser apresentada pela Júlia Pinheiro e pelo Manuel Luís Goucha.

- Quem teve a ideia de colocar Miranda Calha como coordenador autárquico do PS devia passar três dias a arrancar os outdoors de campanha com os dentes. E quem teve a ideia de o deixar discursar para as televisões devia estar a escrever guiões para programas do Baby TV. Ou dos novos canais ZON-zen. Miranda Calha aparece e os jornalistas não prestam atenção ao que ele está a dizer. É uma risota pegada. O Guiness está a investigá-lo para recordista mundial de tiques.

- Como sempre, em qualquer eleição, nunca ninguém perde. Tenho pena de não ter apanhado nenhuma declaração pública de Manuel Monteiro nas últimas três semanas. Tenho a certeza que nem ele seria derrotado. A CDU perdeu várias autarquias e, mesmo assim, diz que reforçou a sua posição naquelas que manteve. E queixa-se que as pessoas que não votaram na CDU não o fizeram porque foram atrás das ideias de direita do PS. Os comunistas gostam de ideais de direita? Não sabia. Francisco Louçã fez uma declaração pública em que parecia - por momentos cheguei a pôr o aparelho auditivo no máximo porque pensava que era desta - que ia admitir a derrota. Mas não. Disse apenas que ia mencionar um objectivo que o BE não tinha conseguido atingir e, sem dar por isso, mencionou dois de seguida. E no imediato lançou-se a dizer que era uma grande vitória a manutenção da única câmara municipal que já tinham.

- Maldita ZON TV Cabo. Se não fosse pela incompetência de quem ali trabalha, não teria sido obrigado a passar por tudo isto.

- Peço desculpa. As notas não são tão breves quanto isso

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Para o improvável caso de alguém querer saber as coisas parvas que por aqui se dizem...

Coisas que se dizem assim por aí...

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