Em Ovar há um carnaval que é praticamente tão mau como todos os outros, se não for pior ainda. O evento deste ano é identificado como «a mais louca e criativa festa popular do país», negligenciando claramente a superior categoria de outras festas de carácter popular que se realizam em Portugal, como as marchas de Lisboa ou o desfile dos pais natais no Porto. Ou mesmo a inauguração da árvore de natal do parque Eduardo VII.O carnaval de Ovar pauta-se por ter a mesma qualidade dos outros carnavais espalhados pelo país. Ou seja, é estúpido. Pelo simples motivo de que se chama carnaval, já se qualifica directamente para a categoria «estupidez», sendo claramente um dos candidatos ao galardão de «mais estúpido de todos». Na frase de lançamento das festividades, a organização do carnaval ovário diz «sabemos que está farto de ouvir falar na crise, por isso, deixe-se envolver pela folia e levar pela loucura. Em Ovar, tome a Vitamina da Alegria® e embarque nesta viagem onde (quase) tudo é permitido». Fantástico, não é? Não só os ovários descobriram o remédio para a crise, como registaram a marca desse remédio e passaram a concorrer directamente com qualquer laboratório farmacêutico desse mundo fora. Até imagino a delegação de Ovar a fazer-se representar num congresso de medicina em Boston: «nós inventámos uma vitamina que dá alegria, faz-nos fazer coisas parvas durante uns dias e esquecer que não temos dinheiro para mandar arranjar os dentes às crianças». E depois um médico pergunta: «então e depois de passar o efeito da vitamina? Tomam mais?» Não. É um exclusivo dos dias do carnaval. Depois não vale tomar. É batota. Depois passa o efeito alucinogénio e toda a gente se lembra que vive apertado, com as meias rotas e os sapatos descascados.
A melhor sugestão dos ovários para este carnaval é que esqueçamos a crise. Pois para esquecer a crise, parece-me um princípio importante... fazer com que ela não exista. Os rios de dinheiro que se gastam num carnaval podiam servir, por exemplo, para construir um telheiro novo na escola primária, abrir dois novos postos de saúde, fazer uma morgue decente na paróquia e, quem sabe, comprar um BMW 740i ao presidente da câmara, que está farto de andar de Audi.
Se toda a gente que trabalha no carnaval de Ovar trabalhasse a sério nos seus empregos, a única crise que haveria era de asma.
Para mim, o carnaval deixava-se sossegadinho lá no Brasil, na terra dele. Ou então voltávamos àquilo que antigamente se considerava «carnaval» em Portugal: um bando de gente a atirar trampa às fuças uns dos outros. Isso sim, parece-me um bom motivo para montar um arraial.
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